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23.3.06

Ai santo Cristo... 

Para mim não há nada que consubstancie melhor a alma dum povo que a música folclórica. O tom mais alegre ou mais melancólico das melodias, os ritmos, os sons, as vozes, etc., dizem-nos muito sobre a psicologia e a energia criadora dos povos. A canção que se segue, extraída do folclore aragonês, pode considerar-se um paradigma do que de mais belo existe na música popular espanhola.

Vamos ouvir La magallonera uma jota aragonesa interpretada pela voz ímpar de Ana Rodrigo.

21.3.06

Jotas aragonesas 

Eu não sei se já alguma vez foram a Huesca, à festa de São Lourenço. O povo desta cidade espanhola tem pelo seu santo padroeiro uma veneração que, em certas ocasiões, sobe aos píncaros do mais alto misticismo.

Penso que as razões sentimentais de tal devoção radicam no cruel martírio que o santo padeceu no sec. III , numa das perseguições levadas a cabo pelo Imperador Valeriano. Para não me alongar demasiado hei por bem poupar-vos aos pormenores da história, mas não resisto a dizer-vos que o pobre homem acabou assado em cima duma grelha de ferro, ai que horror…

Já lá vão quase dois milénios e o povo oscense, fazendo jus às heróicas virtudes do supliciado, ainda o não esqueceu. Todos os anos, em 10 de Agosto, se celebra em Huesca, capital da província de Aragão, o aniversário do seu martírio, decorrendo os festejos em sua memória de 9 a 15 de Agosto.

À noite o frenesim atinge o auge quando o povo aflui ao parque Miguel Servet e se junta à volta do palanque para apreciar as famosas jotas aragonesas, danças populares geralmente acompanhadas de guitarras, pandeireta, castanholas e ferrinhos.

Dizem os entendidos que a jota é uma espécie de valsa, mas distingue-se desta última por ser mais viva e por apresentar uma maior liberdade coreográfica. Mas, quanto a mim, o que torna a dança universalmente famosa é o canto a solo ou em dueto que normalmente a acompanha.

Meus senhores e minhas senhoras, tenho a honra de vos apresentar He venido yo a cantar interpretada por Maria Luz Lafita, uma espanholita cheia de genica.

Já agora sai La palomica um canto joteiro em dueto só para fazerem uma ideia.

24.2.06

Serenata 

Vem ó noite de luar,
Traz contigo as Plêiades e Orion.

[As perfídias do Mundo
esqueçamos por um momento]

E enquanto dorme o radioso Ámon
E sopra o belicoso vento
Embarquemos na caravela
Rumo ao alto mar...
Cantemos a Nina Bela
Nesta noite de encantar.

21.2.06

Perversidades 

Há um sujeito que anda a utilizar o meu pc como terminal remoto com propósitos sinistros. Quem será o fdp?

8.1.06

Eu cá sempre tinha razão... 

“Desapareceram 17 milhões de euros das contas do Exército. Tribunal de Contas exige esclarecimentos” – diz o jornal “Independente” desta semana em notícia de primeira página.

Os três anos que estive no Exército chegaram e sobraram para adquirir aquele “feeling” de que estava numa espécie de gruta de Alibabá - com a diferença de que em vez de 40 ladrões havia muitos mais...

As notícias de desvios de fundos e de falcatruas praticadas no seio da instituição militar vêm-se tornando cada vez mais frequentes. Como cidadão só espero que a indignação pública e o poder judicial ajudem a repor o equilíbrio homeostático dum sistema que se encontra corrompido sabe Deus até que ponto.

Música de fundo: os vampiros


Clique em vampiros para ouvir a respectiva música.


22.12.05

Pausas forçadas 

Há uns anos o ministro da Educação do governo de António Guterres anunciou que iria abolir a filosofia do secundário, mantendo-a apenas nos cursos em que figurasse como disciplina específica. Exultei de alegria com o anúncio porque eu próprio há muito vinha advogando a necessidade de tal medida e por entender que a filosofia era um peso morto para a maioria dos estudantes.

Quando tudo parecia correr sobre rodas aconteceu algo de imprevisto. Marcelo Rebelo de Sousa, verdadeira figura rasputiniana do regime, aparece no ecrã da tvi a malhar no ministro dizendo que não senhor, que a filosofia era muito importante, que ensinava as pessoas a pensar, blá, blá, blá… Para meu grande espanto vi o governo fazer marcha atrás, matando assim à nascença um projecto que se augurava tão auspicioso para a Educação em Portugal.

Recentemente um ministro do Governo de Sócrates fez um anúncio idêntico, dizendo que a filosofia e o português iriam ser varridos das globais do 12.º ano, nos cursos em que não figurassem como disciplinas específicas. De novo me enchi de júbilo.

“Desta vez é que é!” - pensei. Eis senão quando vejo na tv um tipo chamado Marques Mendes, presidente do PSD, a dizer que a medida do Sr. Ministro era uma estupidez, que não podia pactuar com o facilitismo, blá, blá, blá…

Perante esta nova nuvem só espero que o governo não ceda outra vez. É mais que tempo de aliviar os estudantes de todas as matérias supérfluas que os fazem patinar, mas que em nada contribuem, em termos de eficiência, para o seu futuro desempenho profissional.

Quando falo em matérias supérfluas não quero dizer que o Português esteja automaticamente abrangido. O que eu quero dizer é que, para certos cursos de indole técnica, o Português não pode constituir factor impeditivo de progressão nos estudos.


Nota de rodapé

Tanto Marcelo Rebelo de Sousa como Marques Mendes fazem-me lembrar um instrutor manhoso que conheci na tropa. Nos testes físicos de fim de curso havia uma prova chamada elevações. O recruta, suspenso pelas mãos duma tubo, tinha que elevar e baixar o corpo de modo a roçar com o queixo no tubo sempre que ia acima e a esticar completamente os braços de cada vez que vinha abaixo. Era uma prova difícil que fazia baixar as médias aos mancebos mesmo aos mais ginasticados.

Acontece que nesta modalidade de prova eu batia todos os recordes. E o instrutor, que era um bocado pulha, sabia-o melhor que ninguém. A minha técnica era igual a de todos os demais. Consistia em fazer o vaivém o mais rapidamente possível de modo a evitar as pausas no fim de cada ciclo pois era sabido que as ditas pausas consumiam energia a uma taxa muito alta fazendo descer a pontuação de forma drástica.

Pois bem, ia eu na terceira ou quarta elevação quando o gajo me ordenou que parasse. E ali fiquei eu suspenso como um gato dum algeroz a ouvir o sacana a dizer-me para que subisse e descesse ao ritmo marcado por ele. Depois de ouvir o seu "discurso" lá retomei o exercício ao ritmo da sua "batuta" com pausas propositadamente longas a fim de me fazer perder forças. Moral da história: em vez das 20 elevações que costumava fazer acabei por fazer apenas 13 ou 14, já não me lembro bem.

Nesta parábola as pausas forçadas são a filosofia e o português. O instrutor manhoso é representado pelos dois políticos mencionados. Quem tiver ouvidos para ouvir que oiça.

Uma bicha de sete cabeças 

A equação de campo de Einstein na sua forma mais compacta (e elegante) pode ser representada do seguinte modo:

Gμυ = 8 π Tμυ

A simplicidade da equação é enganadora. Por baixo do manto (pouco diáfano) dos símbolos encontra-se um diabo matemático apenas domável por mentes brilhantes.

A expressão do lado esquerdo representa a curvatura do espaço-tempo e a do lado direito a matéria-energia contida no espaço-tempo. Esta versão da equação implica um universo em que as galáxias se afastam umas das outras com velocidade crescente (modelo dinâmico de universo).

Mas em 1915 Einstein não sabia ainda que o universo estava em expansão. De acordo com a ciência da época estava convencido que o universo era estático, isto é, que o universo era um espaço fechado onde as galáxias mantinham as distâncias entre si.

Esta convicção levou-o a cometer “o maior disparate da sua vida”, adicionando ao membro esquerdo da equação aquilo que ficaria conhecido na história da ciência como o termo cosmológico. Deste modo a primitiva equação passou a ter o seguinte aspecto:

Gμυ + λ gμυ = 8 π Tμυ

em que λ é a constante cosmológica.

8.12.05

O terceiro calhau... 


A Terra vista da Lua


O nosso mundo visto da Lua tem um aspecto muito belo. Qualquer extraterrestre que se deparasse com tal visão não deixaria de se sentir deslumbrado. Mas este mundo que aos sentidos se oferece tão aprazível e encantador foi o mesmo que matou Jesus Cristo, Mahatma Gandi e Luther King. Todos eles se bateram pela justiça e pela paz, todos eles “combateram o bom combate”, todos eles lutaram por um mundo melhor e todos, sem excepção, acabaram de forma trágica.

Também John Lennon, levado por um certo espírito messiânico, tentou apelar à paz mundial com a sua canção “Give a peace a chance”. Acabou por morrer às mãos dum desequilibrado ávido de celebridade.

Apesar do esforço de todos estes "gurus" o mundo pouco ou nada melhorou em termos ético-morais. Passaram mais de 2000 anos sobre a morte ignominiosa de Cristo na cruz e fico com a sensação de que tudo continua como dantes com o quartel-general em Abrantes. A humanidade continua transviada, cada vez com mais criminosos, cada vez com mais pulhas.

Como dar a volta a isto? Como motivar os pulhas a serem mais honestos nas suas relações interpessoais? Em "O Universo de Carl Sagan" há uma passagem alusiva à guerra do Vietname que talvez contenha uma resposta possível, embora de exequibilidade duvidosa. Quando o sargento Andy, um tipo recém chegado ao teatro da guerra, pergunta a um veterano como poderia motivar as tropas, eis que lhe responde:

Andy, se os agarrares com força pelas partes baixas, os corações e as cabeças virão a seguir.

Palavra de sargento de artilharia.

7.12.05

Matéria reimosa 

Num dos textos dum dos nossos sapientes professores doutores encontrei esta pérola de erudição:

A Segunda lei da termodinâmica revela a imagem de um universo em expansão, ameaçado pela crescente entropia, ao mesmo tempo que, por reacção neguentrópica, se reforça a “pirâmide da complexidade” que leva das partículas elementares aos organismos vivos...

Um texto destes [se estivesse cientificamente correcto, que não está] talvez não ficasse mal num curso de física ou de filosofia, mas que hei-de eu dizer quando o curso em causa é o de educadora de infância? Levanta-se aqui um problema. Que validade tem este tipo de conhecimento “científico” para uma moça cuja missão será educar crianças que ainda cheiram a cueiros? Que importa a uma futura educadora infantil a 2ª. Lei da termodinâmica e as reacções neguentrópicas? Porventura não seria mais proveitoso ensinar-lhe a cantar “o patinho nada dentro do laguinho” e outras canções do género?

Este género de linguagem opaca e pretensiosa faz-me lembrar uma personagem de Júlio Dinis. Nas “Pupilas” o escritor põe um barbeiro a discorrer sobre medicina com o João Semana, o velho cirurgião da aldeia. Quando em determinada altura o médico interroga o barbeiro acerca duma doente, que tratavam a meias, eis o modo como lhe responde o charlatão:

Enquanto a mim, e até onde chegam as minhas fracas luzes, aquilo é o flato que lhe subiu ao coração. Por isso a doentinha tem aqueles pasmos, que se vêem. Ora os sinapismos, puxando-lhe os humores para os pés, algum bem lhe podem fazer. Mas eu por mim, Sr. João Semana, penso que nestas doenças de retrocesso, a matéria reimosa não sai sem sedenho. E que ali há matéria reimosa – e fel, que é ainda pior – isso é que há…

Brilhante e cáustico este Júlio Dinis.

Se atentarmos nos dois discursos, o do Sr. Professor catedrático e o do curandeiro charlatão, verificamos que ambos têm um registo muito semelhante. Em primeiro lugar chama a atenção o léxico vistoso e espampanante de ambos com um certo sabor criptográfico. É notório que o objectivo não é informar, mas antes atrapalhar. Enfim, nada que não possa resolver-se com um bom dicionário à mão. O pior é o conteúdo. Em ambos os casos os textos não têm ponta por onde se lhe pegue, pelo que ambos ficariam bem na boca de um Calinas.

E para que não restem dúvidas sobre o fundamento das minhas críticas afirmo solenemente que a segunda lei da termodinâmica não revela de modo nenhum a imagem dum universo em expansão. Se o revelasse os cientistas não teriam perfilhado durante tantos anos o modelo de um universo estático, Einstein não teria adicionado à sua equação do campo gravítico o termo cosmológico, nem teríamos de esperar pelas observações astronómicas de Edwin Hubble que, no ano de 1929, confirmou que o universo estava realmente em expansão.

Ainda não há muito tempo o Dr. Jorge Sampaio disse não compreender porque havia tanto insucesso escolar no ensino superior. Para mim a explicação é clara como a água. Os programas são, dum modo geral, excessivamente teóricos e desligados da realidade. Em suma, contêm muita "matéria reimosa" - para utilizar aqui a terminologia charlatanesca do barbeiro de Júlio Dinis.

Se quisermos melhorar as estatísticas da Educação temos que reformar os programas escolares de molde a expurgá-los de todo o "enchumaço" teórico inútil e dotar as escolas de professores motivados e competentes. Por outras palavras, não percamos tempo com "manobras de diversão" mas tentemos antes confluir directamente para o objectivo fornecendo aos estudantes uma bagagem sólida de competências técnicas que lhes permita vencer os desafios profissionais do futuro sem grandes sobressaltos.

Não é com epistemologias e outras tretas que chegamos lá...

O homem que revelou a expansão do universo 

Em 1915 Einstein chegou a uma equação estranha e no mínimo surpreendente. A dita equação implicava um universo dinâmico, isto é, um universo em expansão.

Como tal resultado colidia com o modelo de universo estático, então dominante na comunidade cientifica, Einstein achou que tinha de fazer qualquer coisa para ajustar a equação ao dito modelo que pensava retratar a realidade física. E vai daí adicionou à equação um novo termo contendo uma constante em ordem a obter um universo estático. À dita constante foi dado o nome de "constante cosmológica".

Porém,em 1929, no observatório de Monte Wilson ocorre uma descoberta espantosa. Edwin Hubble, aos comandos do telescópio de 100 polegadas, descobre que o universo se encontrava de facto em expansão, com as galáxias a afastarem-se umas das outras a uma velocidade estonteante.

Tal descoberta abalou o mundo inteiro e principalmente Einstein que se apressou a retirar da equação o termo cosmológico que ele apelidou de "maior disparate da sua vida".


O telescópio de 100 polegadas de Mount Wilson, com o qual Hubble fez a sua grande descoberta.

Toda esta conversa para quê? Simplesmente para salientar que se deve ter muito cuidado com o que se escreve. Afirmar que a segunda lei da termodinâmica revela a imagem de um universo em expansão parece-me um rotundo disparate. Se de facto revelasse um universo em expansão, Einstein, arguto como era, ter-se-ia apercebido disso imediatamente e nunca teria adicionado às suas equações do campo gravítacional o termo cosmológico, pois ele, como físico, conhecia muito bem a 2.ª lei da termodinâmica, a qual, aliás, já tinha sido enunciada empiricamente no séc. XIX, portanto, muito tempo antes.

4.12.05

Uma frase enigmática 

Há uns anitos quando descia o Douro num barco semi-rígido encontrei na barragem da Valeira algumas inscrições muito curiosas. Estas assinalam o fatídico local onde outrora se erguia o cachão da Valeira, originado por um bruto rochedo no meio do rio que obstaculizava a navegação desde tempos imemoriais. Foi ali que um dia o barco rabelo do barão de Forrester foi colhido por um redemoinho e se voltou com 16 pessoas a bordo. Todos se salvaram menos o barão, uma criada e um criado. Camilo Castelo Branco, em "A Queda de um Anjo", faz alusão ao desastre que tanto impressionou a sociedade da época.



Na foto vêem-se duas inscrições praticamente iguais. A primeira (e mais antiga) está parcialmente submersa e remonta ao reinado de D. Maria I; a segunda, um pouco mais acima, não passa duma cópia da original, tendo sido gravada posteriormente por razões que facilmente se intuem.

Dizem o seguinte as inscrições:

Imperando D. Maria primeira (...)
se demoliu o famozo rochedo
que fazendo aqui
hum cacham inaccessível
impossibilitava a navegação
desde o principio dos séculos.
Durou a obra
desde 1780 até 1791.

Ambas as inscrições terminam com uma frase em latim onde se pode ler:

PATRIAM AM AVIFILIOSQUE DILEXI.

O que quererá dizer esta frase enigmática? Em parte alguma achei quem se dignasse esclarecer este mistério. Um belo dia, porém, decidi meter mãos à obra. Agrupei as palavras "comme il faut" tendo chegado ao seguinte arranjo:

PATRIAM AMAVI FILIOSQUE DILEXI.

[Amei a Pátria e os filhos honrei.]


P.S. Ainda dizem que o latim é uma língua morta que não serve para nada, ai não que não serve...

In memoriam... 

Estava refastelado num sofá a ver o telejornal da noite. De súbito vejo desfilar na pantalha do televisor imagens alusivas ao Afeganistão e ao pobre sargento que lá se finou do modo que a gente sabe. Seguem-se cenas fugazes do aeroporto de Cabul, soldados em confraternização, casas destruídas... até que a câmara se centra numa pequena lápide de mármore “IN MEMORIUM” do pobre coitado.
Ao contemplar tão grosseiro dislate senti uma espécie de reacção disfórica por os nossos militares tratarem tão mal o latinório. Se Cícero fosse vivo dava-lhe um baque! Então isso é coisa que se faça? Como castigo, senhores militares, todos já para a parada em passo de corrida e façam favor de preparar os bracinhos para 50 flexões.

- Um, dois,
- TRÊS, QUATRO…
- Abaixo, acima!
................

27.11.05

A Senhora com mais devotos em Portugal 

Há em Portugal uma capela muito antiga dedicada à Senhora da Saca a Parte. Alguns estudiosos tentaram averiguar a origem do nome mas sem grande sucesso. As hipóteses pecam todas por uma grande inverosimilhança. O Prof. Hermano Saraiva, espírito arguto, avançou com uma explicação bem mais simples e credível.

Em tempos recuados a tropa fronteiriça, capitaneada por um José do Telhado qualquer, exercitava a perícia militar invadindo os territórios vizinhos, tendo como móbil principal a roubalheira. Pilhavam tudo o que vinha à mão: fruta, cereais, cavalos e o diabo a quatro. Se, no meio do desatino, apanhassem mulheres a jeito… chamavam-lhes um figo...

Findas as incursões iam para diante da capela disputar o produto do saque segundo as prerrogativas do posto. Os soldados rasos ficavam com o refugo, a parte de leão ía evidentemente para os que tinham mais galões porque “não se pode tratar de forma igual o que é diferente, não é verdade?”

Segundo Hermano Saraiva, foi graças a esta acção tão venal e tão pouco piedosa, repetida ao longo dos séculos, que a patrona da capela acabou por ganhar o estranho nome de “Senhora da Saca a Parte” que é como quem diz, a Senhora de Dá Cá o Meu… e que, quanto a mim e por mais que isto custe a muitos, é a santa que conta com mais devotos em Portugal…

15.4.05

Ein volk... 

Pela Páscoa peguei na autocaravana e fui até ao Algarve. O parque de campismo estava esmagadoramente ocupado por autocaravanas de matrícula DE. Com alguma sorte lá consegui arranjar um espaço na zona mais outdoor, tendo por vizinhos os pinheiros e os alemães.

A breve trecho estava recostado numa cadeira de praia a ler como um lorde. Rente à rede da vedação, onde me encontrava, passava um caminho de terra batida que um pouco mais adiante se sumia no pinhal em direcção ao norte.

Naqueles dias estava apostado em ler um volumoso cartapácio sobre o liberalismo em Portugal, mas acontece que de vez em quando a minha leitura era perturbada pelo suave trote de esbeltas moças alemãs que ali passavam de amiúde num tirocínio atlético anunciador de maratona próxima. Eram moças, loiras umas, de cabelo platinado, outras, mas todas tão bem feitas de corpo e com uma pele tão branca e delicada que pareciam deusas descidas do Olimpo.

Pensei para comigo e para com Deus: "Se este delicioso trote continua adeus Maria da Fonte!" Era na verdade uma carga de trabalhos retomar a leitura depois de cada passagem das nórdicas deusas, seguir os desenvolvimentos da Revolução de 1820 ou os sucessos subsequentes à outorga da Carta Constitucional - para já não falar das peripécias decorrentes das lutas entre cabralistas e patuleias, etc., etc.

Em determinado momento a minha "patroa" chama-me a atenção para o facto algo insólito de estarmos ali sozinhos entre estrangeiros sem termos um português com quem falar.

- Não há problema! – retruquei. – E elevando a voz uma oitava, julgando que ninguém me ouvia, fiz ressoar em redor um «EIN VOLK, EIN REICH, EIN FÜHRER!»

Que raio disseste tu! Acto contínuo detecto um par de olhos verdes a fixarem-me num misto de grande estranheza e perplexidade. Era a vizinha do lado – uma jovem alemã de olhos penetrantes que, por detrás duma “trincheira” de nylon, me trespassava com os seus olhos inquiridores e cheios de mistério…

Em que pensaria ela? Certamente que eu era algum discípulo do Adolfo...

2.4.05

Engravidar - etimologia 

O vocábulo engravidar deriva do verbo latino gravidare que significa "carregar, tornar pesado." Nesta acepção o verbo é transitivo o que pressupõe desde logo um complemento directo.

Ex.

ROMANI SABINAS GRAVIDAVERUNT.
Os romanos engravidaram as sabinas.

Em sentido etimológico a frase anterior poderia traduzir-se assim:

"Os romanos carregaram as sabinas" (com o feto).

ou

"Os romanos tornaram pesadas as sabinas" (com o feto)

O sentido primitivo de "carregar, tornar pesado" evoluíu com o passar do tempo para o sentido actual de "fecundar, emprenhar."

Actualmente, o verbo engravidar emprega-se mais frequentemente no modo intransitivo como ilustra o seguinte exemplo:

SABINAE GRAVIDAVERUNT.
As sabinas engravidaram.

Isto é, ficaram grávidas. Neste caso o verbo não necessita de complemento directo.


Palavras da mesma família:

grávido,a - do lat. gravidus,a,um (carregado, cheio, pesado).

grave - do lat. gravis,e adj. (pesado, cheio, carregado, prenhe, grave). Ex. mulier gravis - mulher prenhe. A queda dos graves foi estudada por Galileu e Newton.

gravidez - do lat. gravitas,atis f. (peso, gravidez, gravidade).

gravar - do lat. gravare (pesar sobre, sobrecarregar, carregar, gravar)

Nota:

No acto de gravar uma inscrição numa pedra, por exemplo, está implícita a ideia de algo que "carrega, sobrecarrega ou pesa sobre". É o que faz o buril ou o cinzel no acto de desenhar as letras ou o quer que seja. Do exposto pode concluir-se que as palavras gravar e engravidar, aparentemente tão dissemelhantes, possuem na realidade a mesma filiação, pois é certo que ambas derivam de gravis,e (pesado) - que é o seu étimo.

30.3.05

Não... 

confundais a liberdade com a licença porque a liberdade é filha da razão e a licença é filha do desatino.

12.3.05

O meu sismómetro 

Um belo dia estava sentado à secretária a fazer um trabalho qualquer no pc quando subitamente ouço qualquer coisa a dançar atrás de mim, mesmo por cima da minha cabeça. Viro-me e o que é que eu vejo? O Camilo e o João de Deus a dançarem o fandango em cima das estantes. Deduzi imediatamente que se tratava dum sismo. À noite, o telejornal confirmava a minha suspeita. Felizmente que o terramoto foi de pequena magnitude, porque se calha a ser maior levava com os dois jarretas em cima da cabeça, ai levava, levava...



Os dois velhotes, em conjunto, constituem o meu sismómetro privativo e são cá duma sensibilidade que só visto. A terra não é senhora de abanar um bocadinho que eles não comecem logo a fandangar...

11.3.05

A pulhice do «homo sapiens» 

Dois médicos e uma funcionária, todos em conluio, burlaram a ADSE em 4 milhões de euros - informam os jornais desta semana. O modus operandi é o do costume: sobrefacturação e cobrança ao Estado de comparticipações por serviços fantasmas. O pior de tudo é que este não deve ser um caso isolado. Por esse país fora há-de haver muitos mais e não só na área da saúde. Só espero que a justiça tenha mão pesada e que não os poupe nem um bocadinho. Não posso com a pulhice em geral, mas com estes pulhas de colarinho branco a minha indignação ainda é maior porque como diria o Diácono Remédios: "Não havia necessidade..."

Música de fundo: «Os vampiros»

7.3.05

O místico 

Conheço um sujeito que tem um percurso de vida um tanto ou quanto singular. Já foi fabricante de tijolo, taxista, curandeiro e agora místico. Certo dia procurou-me para me pedir um favor. Mandei-o entrar para a minha biblioteca e uma vez sentados à mesa aguardei com curiosidade que me revelasse o motivo da sua visita. Revelou-me que tinha descoberto uma erva milagrosa que, aliada às suas orações, tratava com êxito extensa panóplia de doenças, espécie de panaceia que dava para tudo.

E como ele vislumbrasse na minha expressão fisionómica algum indício de cepticismo ou de descrença, ei-lo que desata de me narrar casos concretos de curas por ele efectuadas, numa longa casuística onde os médicos apareciam geralmente como nabos e o nosso herói como anjo salvador.

Finda a narração fez-me uma proposta: em troca da publicidade na Internet dos seus serviços de milagreiro ele oferecia-me participação nos lucros. Respondi-lhe que não era autor de nenhum site - o que era verdade, na altura - e que o melhor era procurar alguém que trabalhasse nessa área da informática para levar a cabo o seu projecto.

Vendo que eu me mostrava evasivo em relação ao proposto, os seus lábios deixaram escapar a seguinte frase:

"Somos todos muito bons rapazes principalmente quando estamos a dormir..."

Uma sentença cheia de sabedoria, condizente, aliás, com o seu carácter de místico- religioso que passa longas horas em meditação e lendo a sagrada escritura...

23.1.05

Há dias... 

registei mais de 300 tentativas de intrusão no meu pc numa única sessão. Em virtude dos ataques dos hackers o meu pc já por diversas vezes acusou falhas de operacionalidade (lentidão, perda de acentos, processadores de texto bloqueados, etc.) Entendo que os causadores destes danos não podem continuar com a sua actividade criminosa e ficarem impunes. Por isso, se este cenário continuar, estou a pensar em mandar investigar o caso à Polícia Judiciária.

É preciso que os autores destes actos saibam que estão a cometer um crime punível por lei.

Cito a propósito o artigo 5.º da Lei nº. 109/91 que considero bastante pertinente:


Artigo 5.º

Dano relativo a dados ou programas informáticos

1 - Quem, sem para tanto estar autorizado, e actuando com intenção de causar prejuízo a outrem ou de obter um benefício ilegítimo para si ou para terceiros, apagar, destruir, no todo ou em parte, danificar, suprimir ou tornar não utilizáveis dados ou programas informáticos alheios ou, por qualquer forma, lhes afectar a capacidade de uso será punido com pena de prisão até três anos ou pena de multa.

2 - A tentativa é punível.

3 - Se o dano causado for de valor elevado, a pena será a de prisão até 5 anos ou de multa até 600 dias.

4 - Se o dano causado for de valor consideravelmente elevado, a pena será a de prisão de 1 a 10 anos.

5 - Nos casos previstos nos n.os 1, 2 e 3 o procedimento penal depende da queixa.

P.S. Ao analisar os IPs dos atacantes verifiquei, com grande espanto, que um dos IPs coincidia com o IP do meu PC nos primeiros oito dígitos. Inacreditável!

Geradores semioticos... 

Agora ando a dar… sociologia ... E o que eu me rio, ó virgem santa, com o palavreado oco e balofo, a vacuidade da fraseologia, a verborreia pretensiosa e pedantesca e outras coisas mais.

Para não dizerem que eu que exagero:

"Ela [análise de conteúdo] pode, eventualmente, permitir captar, não apenas a informação explícita das mensagens, mas ainda as condições teórico-ideológicas de produção dessas mensagens (os seus “geradores” semióticos), bem como fornecer indicações sobre a articulação dos geradores com os lugares sociais da sua produção”

Como se vê, um modelo de clareza e de elegância expositiva. Então essa da “articulação dos geradores com os lugares sociais da sua produção” é de antologia…

Como se estas e outras não bastassem, mais adiante o irritante livrinho apresenta um documento digno da astróloga Maia.

“CARANGUEJO: 22 Junho a 23 Julho.
CARTA DOMINANTE: X (A RODA DA FORTUNA)

A RODA DA FORTUNA traz algumas dificuldades na abordagem de assuntos ou no desenvolvimento de actividades, mas depois de superados os primeiros obstáculos tudo correrá bem. Evite expor-se em demasia.

PLANO AFECTIVO: Momento de grandes melhorias na vida sentimental. Boa semana para traçar planos de futuro. Seja firme, pois corre o risco de fazer cedências que serão difíceis de repor.

PLANO MATERIAL: Tente a via do diálogo para resolver assuntos, embora nalguns casos este processo seja o mais difícil. Faça acordos e, se não o conseguir, retire-se e aguarde melhores oportunidades. Tenha atenção ao seu sistma nervoso.

Segue-se a Balança, o Leão, o Escorpião, a Virgem, e o Sagitário. A conversa fiada repete-se ao longo do palavroso e inútil documento com variações em dó maior…

No fim vem a sugestão de trabalho.

1. A partir da análise do documento 1 e tendo em atenção o que estudou acerca da análise de conteúdo, complete os quadros que se seguem:

ATITUDES VALORIZADAS

Categorias........Componentes.......Exemplos(retirados do documento 1)

Prudência.........Paciência ……………………………………
......................Tolerância
......................Compreensão
......................Calma
......................etc.

Optimismo.........Firmeza
......................Acção

Energia............Abertura
.....................Iniciativa
.....................etc.

Se isto é aprender sociologia com um mínimo de rigor científico vou ali e já venho. Para terminar vejam se descobrem os geradores semióticos desta mensagem e outras parvoíces do género que eu vou ali ver se caço um gambozino...
Entretenham-se.

Assim vai o ensino em Portugal...

13.1.05

Oh cousas todas vãs, todas mudaves... 

Qual é o coração que em vós confia?

Sá de Miranda


Pois é, essa história dos IPs dinâmicos significa, em última análise, que estive a gastar o meu latim em vão. Motivo porque apaguei o meu post "high risc".
Mas deixem lá. «Há mais marés que marinheiros..."



3.1.05

Quis putas? 

In illa hora accesserunt discipuli ad Iesum dicentes: Quis putas maior est in regno caelorum? Et advocans Iesus parvulum statuit eum in medio eorum et dixit:«Amen dico vobis, nisi conversi fueritis et efficiamini sicut parvuli, non intrabitis in regnum caelorum.»

Em traduçao um pouco livre significa:

Naquele momento, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: Quem é o maior no reino dos céus? Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: «Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no reino dos céus.»


Não perguntem... 

Si caraculum tuum scandalizat te, abscide eum et proice abs te; bonum tibi est sine caraculo in vitam intrare, quam caraculum habentem mitti in ignem aeternum.

Aqui está uma frase que tenho vergonha de traduzir. Se querem saber o significado da dita podem perguntar à Bomba Inteligente.

Não perguntem é ao senhor prior...



31.12.04

Tomai e comei... 

Quando as mulheres nos amam, perdoam-nos tudo, até os nossos crimes; quando não nos amam, não nos perdoam nada, nem sequer as nossas virtudes.

Balzac



Amen dico vobis... 

Como o touro que investe em vão contra o pano vermelho assim é o insensato. A estupidez não lhe permite aperceber-se do logro pelo que continuará a perseverar no erro até à morte.

Ai dos jovens que levados pela filosofia do carpe diem desperdiçam o tempo em coisas vãs comprometendo o futuro de forma irremediável. «O que é preciso é ser feliz!», diz o tolo. Sim, mas quando a felicidade efémera se sobrepõe ao trabalho e à construção do futuro, então tal felicidade para além de efémera é parva, porque é normalmente o prenúncio de futuras misérias.

Antes de dares um conselho sê sensato ou então cala-te, não aconteça seres o causador de desgraças alheias. Se tal suceder acredita que jamais te perdoarão.

Qualquer que seja a tua profissão faz por exercê-la com honestidade e competência. Muitos se tornam odiosos porque, por culpa sua, fazem deste preceito letra morta.


23.12.04

Assim também eu... 

Perguntaram um dia a um puto angolano como ía o seu país.

- «Máli e máli» - respondeu num sotaque que me fez rir.

O miúdo tinha razão. Angola era um país devastado pela guerra civil e onde imperava a corrupção e a miséria. No que respeita a Portugal já estou como o preto: isto vai «máli e máli.» De facto que se pode esperar dum governo que em nome do défice aliena património atrás de património e até já recorre ao fundo de pensões?


20.12.04

Hoje apetece-me...

malhar nos hackers, esses fdp que não deixam o meu pc em descanso. Se eu lhes pudesse ser bom …

Eles comem tudo... 

8 milhões de contos, pertencentes ao fundo de defesa militar do ultramar, voaram. Onde está a mão da Justiça? É imperioso que se mova caça aos ratoneiros e se lhes dê o destino dos gatunos: a prisão.

Se uma vez mais a culpa morrer solteira então seguramente estamos numa república de bananas.


Música de fundo:«Os vampiros»

................................
Se alguém se engana com o seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo,
Eles comem tudo e não deixam nada.

Refrão

Eles comem tudo, eles comem tudo,
Eles comem tudo e não deixam nada.

26.10.04

Agora ja' sei... 

Ha' uma temporada para ca' que a minha caixa de correio electronico tem vindo a ser bombardeada por toda a especie de propostas mirabolantes. Algumas delas eram oriundas da Nigeria. Propunham-me que autorizasse a transferencia de nao sei quantos milhoes de dolares para a minha conta pessoal, em troca davam-me 15% do valor transferido. Ora 15 % de milhoes de dolares e' muito dinheirinho, mas como eu sou uma pessoa seria apressei-me a eliminar a mensagem. Outros e-mails tinham a ver com negocios milionarios envolvendo petroleo, outros dizendo que me tinha saido a lotaria...

Agora aparecem-me mensagens a propor a venda directa de Vicodin, Cialis, Valium, Ambien, Xanax... ao preço da uva mijona. "Feeling A Little Nervous? Purchase Xanax." E mais adiante: "Buy your drug of choice. No prescription required. Stock is limited and selling fast, so hurry."

Santa Teresinha do Menino Jesus, ao que nos chegamos...

Em abono da verdade, devo dizer que esta ultima historia dos psicotropicos nao foi de todo inutil. Forneceu-me uma expressao que me pode ser de grande utilidade no dia a dia. Agora ja' sei: quando me aparecer alguem a alçar-se e a arregaçar-se, eu muito calmamente so' tenho que dizer-lhe:

- Feeling A Little Nervous? Purchase Xanax...


Para onde quer que vandes... 

Esta aconteceu para la' dos Pirineus num restaurante muito chique maioritariamente frequentado por turistas ingleses. Era Inverno e la' fora o sangue quase gelava nas veias. De subito abre-se uma porta do restaurante e entra na sala, nao uma corrente de frio glacial, mas um garçon impecavelmente uniformizado que, esfregando as maos, diz para o colega em alta voz: "Esta' um frio do caralho!"

Os ingleses, ignorantes da lingua de Camoes, continuaram com as suas conversas de circunstancia alheios ao que se passara, enquanto numa mesa ao fundo um casal de portugueses, que ali se encontrava clandestino, ria a bom rir...

Vem este risivel episodio comprovar mais uma vez a veracidade do proverbio: "Para onde quer que vandes mostrandes sempre o que sandes."

E' curiosa a tendencia que muito boa gente tem para dizer obscenidades. Quando essa tendencia se torna obsessiva temos um caso patologico de coprolalia - vocabulo a que o meu dicionario da Academia de Ciencias se refere como a necessidade compulsiva de proferir palavroes, expressoes obscenas... que se verifica por vezes em neuroticos obsessivos, esquizofrenicos...

Assim e' porque a palavra coprolalia vem do grego kopros ' excremento ' + lalia ' habito de falar '.

O elemento copro e' a raiz de uma serie de vocabulos curiosos:

Coprofagia - Ingestao de excrementos praticada por certos animais, como forma de alimentaçao.

Coprofago - Que se alimenta de excrementos ou que os ingere em resultado de perturbaçao patologica. O mesmo que escatofago.

Coprolito - Excremento transformado em pedra ou fossilizado.

Coprologia - 1. Estudo biologico dos excrementos ou dos estrumes. 2. Emprego de palavroes, de expressoes obscenas ou imundas ou abordagem de temas considerados obscenos, ofensivos... em literatura ou na conversaçao; escatologia
.

"In Dicionario da Lingua Portuguesa Contemporanea" da Academia de Ciencias de Lisboa.

19.10.04

Entusiasmos 

Agora ando a dar explicaçoes de fisica do 12º ano. Ontem entusiasmei-me mais do que devia e 'as tantas quando olhei para o relogio a liçao ja' ia em 4 horas de arenga ininterrupta. Num breve exame de consciencia achei que estava a exagerar. Pensei que se nao aprendesse a controlar o tempo 'as tantas corria o risco de atirar com os discipulos para o Miguel Bombarda.

Assim, na liçao de hoje, resolvi precaver-me. Pus um despertador numa prateleira do armario e assim falei: "Sao 16 horas; 'as 18 horas, no maximo, a liçao tem de estar terminada."

Prometi e cumpri. Faltavam 5 minutos para as 18 quando finalmente dei por encerrada a sessao. Depois do bye-bye da praxe, e estando eu so', dirigi-me ao vasto quadro branco para limpa'-lo. De subito o quadro pareceu-me ter uma estranha beleza. O azul do marcador enchera-o de graficos e equaçoes numa gestalt onde parecia ressumar uma inesperada estetica. Achei ate' que um quadro assim nao ficaria nada mal numa exposiçao de arte surrealista. Foi pois com um sentimento de iconoclastia que agarrei no apagador e apaguei tudo.


21.9.04

Descafeinado metafisico 

Hoje estou num daqueles dias de neura em que so' me apetece escrever disparates, em que me seduz a ideia de dizer algo de estupidamente hermetico, coisas do tipo: Pauis de roçarem ansias pela minh'alma em ouro... dobre longinquo de Outros sinos... empalidece o louro...

Se fosse eu a escrever isto punham-me um colete de forças e despachavam-me imediatamente para Rilhafoles, mas como foi o Fernando Pessoa, esta' bem, sao excentricidades de genio...

Hoje apetecia-me ser genial, ter uma plateia de doidos a baterem-me palmas por um quarteirao de palavras esquizofrenicamente alinhavadas , mas como ainda nao estou suficientemente tonto para isso... sai um descafeinado metafisico para as filhas.

Dogmas, aras, holocaustos, sangue, fogo, virgens prenhes,
santissimas trindades, imaculadas conceiçoes
salmos, sacrossantas leis, sacrificios, mortes, ressurreiçoes
tudo isto em transe alucinogeneo vi desfilar
na avenida psicadelica da minha mente
em procissao infernal com Belzebu 'a frente.

Transgrediste o Sabbat, transgrediste a Lei,
Vociferou um velho de barbas brancas, de sandalias nos pes.
Quem es tu? Por certo nao seras uma fada...
talvez o Padre Eterno, Moises ou Torquemada.

Quem quer que tu sejas, Deus ou Satanas,
miserere mei...miserere mei...
Sou um incircunciso, um pobre de Cristo
que de religiao nada sei.

Fui hereje em Veneza,
excomungado em Amsterdao
fui saduceu, epicureo,
iniquo e sem perdao.
Fui despido e a uma coluna atado
e pelo hazan açoitado
enquanto cantavam um salmo
Miserere mei! Miserere mei!

Fui espezinhado, fui escarnecido,
ate' perder a razao.
Misericordia implorei,
os olhos para o ceu virei
Miserere mei! Miserere mei!

Risos, gargalhadas crueis,
ate' que nao podendo mais
me suicidei...
Miserere mei! Miserere mei!

Manuel Sousa

Em memoria de Uriel da Costa, livre-pensador judaico-portugues, vitima do fanatismo e da intolerancia religiosa.

Lirismos... 

Ontem 'a noite, num debate televisivo sobre a educaçao, ouvi debitar algumas opinioes que me chocaram um bocado. Irritou-me sobremaneira o tom magistral duma professora universitaria quando, puxando a brasa 'a sua sardinha, se ergueu contra a ideia dum ensino predominantemente pratico e tecnologico em detrimento dos estudos humanisticos. Para dar mais peso 'a sua tese disse que o ministro das finanças da Inglaterra era um filosofo...

Ao ouvir isto apeteceu-me saltar do sofa'. Era demais. Apeteceu-me perguntar-lhe: "Sra. Prof. Doutora, com o devido respeito, V. Ex.ª esta' a sugerir que se faça o mesmo neste pobre pais? Nao lhe chega ja' o facto de sermos o pais mais degraçado da Europa? Olhe para a Grecia, nossa irma na pobreza e na miseria, de que lhe valeu ter um Socrates ou um Platao? De que lhe valeu ter um Fidias e uma Venus de Milo se o povo tem um nivel de vida que e' uma vergonha? Deixe os axiomas insensatos na catedra ou meta-os no contentor ou entao ofereça-os aos seus amigos nas brilhantes tertulias de cafe' mas, pela Santa Teresinha do Menino Jesus, nao os traga para a praça publica, nao aconteça algum governante deixar-se impressionar pelas suas luzidias palavras e convida'-la para ministra da educaçao.

De teoricos e burocratas esta' o pais farto. Nos precisamos acima de tudo e' de apostar na formaçao de bons quadros, seja nos dominios da pesquisa cientifica fundamental, seja nos dominios mais praticos da formaçao tecnologica e profissional. Se ao inves disto abarrotarmos os cerebros dos nossos miudos com filosofias vas e lixo metafisico, estamos a comprometer o futuro do pais, afundando-o ainda mais na miseria.

E ja' que gosta tanto de maximas aguente-se la' com esta: Primum vivere, deinde philosophari


6.8.04

Um erro para a eternidade... 

Para homenagear a memoria de meu Pai mandei fazer a "Senhora da Saudade" a um escultor. Trata-se duma estatua em marmore representando uma jovem de cabelos compridos, ar pensativo, com a cabeça inclinada sobre uma coluna e ostentando na mao esquerda uma grinalda de flores.

A ornamentar a coluna esta' a seguinte inscriçao da minha lavra:

IN
PATRIS MEI
MEMORIAM


PATER
FVISTE HOMO
PROBISSIMVS
QVEM COGNOVI

Antes da execuçao do trabalho fiz mil recomendaçoes para que tudo saisse a preceito. Debalde. Ontem, ao visitar o "atelier" do artista, senti-me um bocado desmoralizado. A estatua pareceu-me bem, mas a inscriçao continha uma "gaffe" imperdoavel. Em vez de "FVISTE HOMO" o artista escreveu "FVISTEHOMO"...

Ai que nervos, filhas, ai que nervos...

---

* Traduçao: "Em memoria de meu Pai / Pai foste o homem mais honesto que eu conheci"


4.8.04

Debalde eu lhes dizia... 

- Nao façam isso ao homem, nao façam isso ao homem...

Esta' bem abelha. Sob o astro mudo, os meus homens invadiram o laranjal, seguindo-se um autentico festim... enquanto la' no alto as estrelas brilhavam indiferentes 'a rapina.

- Coitado do homem, quando vir o que lhe fizeram ha'-de dizer boa das obras...

'A luz frouxa duma lanterna detive-me a examinar a carta militar na escala 1:25000. Tive um sobressalto. A topografia do terreno nao condizia com as curvas de nivel da carta o que significava que... estavamos perdidos. "Santa Teresinha do Menino Jesus! Vamos falhar os postos de controlo" - resmoneei entre dentes.

E assim foi. Quando regressamos ao quartel 'as tantas da matina seria licito que me tivesse passado pela cabeça a cançao:

As pombinhas da Catrina
andaram de mao em mao
foram ter 'a Quinta Nova,
ao pombal do Sao Joao.

....................

Oh minha mae nao me bata
q'eu ainda sou pequenina...
....................

Ai, ai... para o que uma pessoa esta' guardada...


2.8.04

De vez em quando... 

sou assaltado por uma duvida recorrente: sera' que vou ser capaz de explicar 'as filhas a equaçao de Schrodinger sem que elas se ponham a gritar «tirem-me daqui!», «tirem-me daqui!»?

So' Deus o sabe...

Eu ca' sempre tinha razao... 

As noticias de hoje falam de megaburla nos serviços de saude do exercito que ultrapassa os 7 milhoes de contos! Militares, medicos, clinicas privadas, laboratorios de analises... tudo envolvido num esquema de roubalheira que ate' arrepia. Sera´ que o poder judicial vai ter mao neles? Duvido.

Estive 3 anos no exercito e, sinceramente, nao gostei do que vi. Nao me surpreende, pois, a podridao que agora esta' a vir ao de cima. Agora os medicos...

Onde esta' a etica, senhores doutores?

26.7.04

Quando o Diabo se faz frade... 


... e' sempre o mais devoto da confraria.


Se eu fosse papa...

...fulminava alguns fdp com a bula Si quam horribile e mandava-os açoitar por um monge, com os padres a cantarem o Miserere mei ...a 4 vozes. Talvez desse mais resultado do que enfia'-los na prisao.

24.7.04

Ontem... 

...estive outra vez de volta do latinorio, desta feita a ler o PORTUGALIAE MONVMENTA HISTORICA (Leges et consuetudines), dois enormes calhamaços de nao sei quantos arrateis que sao um autentico portento...


Sem papas na lingua

Ontem fui visitar um enfermo com a bonita idade de 80 anos. A empregada, mulher desembaraçada e um bocado desbocada, a certa altura pergunta ao idoso porque verteu aguas onde nao devia, se nao sabia meter o coiso no gargalo do recipiente junto do sofa'.
O idoso tentou justificar-se atirando a culpa para cima dos testiculos dizendo:

- Os testiculos sao maiores que... que... que... que...

- A FERRAMENTA, catano! - concluiu a mulher.

Ai o que eu me ri, filhas...

Bem dizem que a gente so' se ri do mal.


22.7.04

Vai com calma Xico... 

Ja' descodifiquei 99,9% do latinorio que consubstancia o foral de S. Vicente da Beira, um manuscrito em latim barbaro datado de Março de 1195, entre cujos outorgantes se conta o rei D. Sancho I.


Escandalo na igreja

Parece que os seminaristas austriacos em vez do latim e da teologia preferem armazenar no disco rigido cenas impudibundas de sexo.

Ainda se fora entre adultos, enfim, mas com crianças, Senhor...

Razao tem os padres quando, durante a celebraçao liturgica, dizem em tom solene:

"Senhor, nao olheis aos nossos pecados, mas 'a fe' da nossa igreja..."




19.7.04

Confesso que me ri... 

quando vi o Avelino Ferreira Torres a esbracejar no campo de futebol com o policia e mais nao sei quantos atras dele. Mas a cena mais caricata passou-se na tv quando estava a ser entrevistado por um jornalista. A crispaçao do rosto do nosso heroi entrecortada por fugazes sorrisos fez-me lembrar o Norman Bates de Psycho que o genial Hitchcock imortalizou.

Se Hollywood descobre o nosso homem e' quase certo que vamos ter um thriller de por os cabelos em pe'. Aquele sorriso 'a Norman Bates vale milhoes...

17.7.04

Conheci um tipo... 

que tratava o Diabo por tu. O tipo tinha sido emigrante em França durante muitos anos. Com o peculio amealhado construira na terra uma casa de tres pisos, com janelas tipo fenetre que era um primor. Mas estava escrito que a sua felicidade devia ser de curta duraçao. Certa noite o Mafarrico invadiu-lhe a casa e começou-lhe a pregar partidas que so' visto. As torneiras abriam-se por sua alta recreaçao e ate' dos tectos chovia agua que Deus a dava...

Nao contente com isto o Diabo ainda tornou a situaçao mais dramatica ao dizer ao pobre homem:

- Sai desta casa!

O Boguinha - assim se chamava o dono da casa - teve uma furia ao ouvir isto e ripostou:

- Sair desta casa, eu? Isso e' que era bom! Esta casa e' minha, paguei-a com o meu rico dinheirinho...

- La' isso e' verdade - concordou o Diabo.

E entao nao e' que depois desta conversa o Diabo saiu mesmo!?

Moral da historia: o Diabo nao e' tao mau como o pintam...


15.7.04

Eu nao sou racista... 

Uma ocasiao encontrava-me numa barbearia para aquilo que vos bem sabeis. Os dois barbeiros eram socios e ambos tinham vivido em Moçambique. Falavam com um misto de entusiasmo e de saudade dos bons velhos tempos em Africa e ambos concordavam que a descolonizaçao tinha sido um grande m***, com liçença da palavra. A paginas tantas veio o racismo 'a baila. Todos os presentes diziam 'a boca cheia que nao eram racistas, nao senhor, que muitos pretos e' que o eram etc. e tal.

Eu ouvia e calava sem dizer a nem b, embora ca' para mim achasse estranho um consenso tao amplo. O facto de em 10 marmanjos nao haver um unico racista era para mim um autentico xeque-mate 'a teoria das probabilidades, algo que nao encaixava de modo nenhum no conjunto das minhas observaçoes empiricas.

'A entrada do estabelecimento estava um senhor de meia idade, de aspecto culto, que de vez em quando embasbacava a audiencia com citaçoes latinas. De subito teve uma inspiraçao e atirou com a seguinte pergunta ao ar:

"Algum dos senhores aqui presentes admitiria casar uma filha com um preto?"

A resposta foi consensual: ninguem admitia.

Moral da historia: eram todos racistas e nao o sabiam.

Obrigado Pacheco... 

 
pela tua linda frase Veritas filia temporis. Muitas sao as situaçoes, de facto, em que a verdade e' filha do tempo porque so' o tempo pode mostrar aos estultos e aos insensatos de que lado esta' a razao, ainda que seja mais que certo que no fim - no caso das coisas correrem para o torto - poucos serao os que dirao mea culpa .
 
 A maior parte vai arranjar bodes expiatorios, racionalizaçoes, etc., mas admitir que erraram... esta'-te quieto.

Por alguma razao se diz que "a culpa morreu solteira".
 
 

14.7.04

Ha' duas frases... 

do Sermao da Montanha que considero maravilhosas:

Beati qui esuriunt et sitiunt iustitiam, quoniam ipsi saturabuntur.

Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serao saciados.


Beati mundo corde, quoniam ipsi Deum videbunt.

Bem-aventurados os puros de coraçao porque verao a Deus.

Belo.

5.7.04

Et qui mulier aforciar... 

O documento que se segue tem mais de 800 anos. Posso pois exclamar 'a boa maneira de Napoleao que do alto deste velho pergaminho 8 seculos vos contemplam... E´ um pormenor ampliado do Foral de S. Vicente da Beira de cujo termo fazia parte a minha terra.

O meu interesse pela historia e a minha atracçao pelo ignoto levou-me a conceber a ideia um pouco temeraria de decifrar este velho manuscrito do sec. XII. Os documentos paleograficos desta epoca historica estao escritos nao em latim classico, mas naquilo a que poderemos chamar latim barbaro, isto e', um latim onde emergem por vezes termos meio populares 'a mistura com o latim propriamente dito. Neste momento tenho ja' mais de 95% do texto decifrado pelo que ainda resistem 'a minha lupa uma data de palavras mais ou menos teimosas.

Para nao espantar as hostes irei apenas focar aqui um pedacinho do pergaminho onde a determinado passo se pode ler o seguinte:



Et qui mulier aforciar, et illa clamando dixerit quod ab illo est aforciada et ille negaret det illa in outorgamento III homines tales qualis ille fuerit et ille iuret cum VII quod non fecit. Et si mulier non habuerit auctorgamentum iuret ipse solus. Et si non potuerit iurare pectet ad illam CCC solidos et VII ad palacium.

Em portugues corrido:

"E quem mulher violar e ela gritando disser que por ele foi violada e ele negar de ela em fiança (da sua palavra) 3 homens em como foi ele e ele jurara com 7 (homens) que nao fez. E se a mulher nao tiver fiança jure ele proprio sozinho. E se nao puder jurar pague a ela 300 soldos e 7.ª (parte) ao palacio. "

A traduçao que acabo de fazer redunda num portugues mal amanhado mas creio que da' para entender. Resumindo e concluindo: naqueles tempos distantes a palavra duma mulher, para merecer credito perante um juiz, devia ser avalizada por 3 homens ja que os testemunhos das mulheres nao pesavam na balança da justiça - pelo menos em delitos de caracter sexual. Quanto ao acusado este podia safar-se da coima se conseguisse reunir 7 homens que, sob juramento, o declarassem incapaz de cometer semelhante acto.

300 soldos era uma quantia muito avultada para a epoca pelo que a coima nao era nada leve. Muito pelo contrario, revelava o grande apreço que os nossos egregios avos tinham pela honra duma mulher.

1.7.04

Cedant arma togae 

"Que as armas cedam 'a toga!" - dizia Cicero ao defender o primado do poder civil sobre o poder militar. Nao pensavam assim os nossos coroneis quando Salazar tomou conta da pasta das Finanças. Enquanto o filho do Manholas tentava a todo o custo endireitar o Orçamento, os coroneis, pensando exclusivamente na barriga deles, queriam 'a viva força que o Ministro da Guerra, general Schiapa de Azevedo, fizesse aprovar em Conselho de Ministros um projecto, segundo o qual ficariam a receber o vencimento do posto imediato ao fim de uns tantos anos de serviço ou quando passassem 'a reserva.

Salazar opos-se ao projecto alegando falta de verba. Quando o general Schiapa deu a ma' noticia aos coroneis, estes replicaram: "O gajo diz que nao da', mas da'." E tentaram demonstrar ao general que feitas bem as contas o Ministerio da Guerra ate' nem precisava de reforço de verba, nao senhor, para por em execuçao o dito projecto.

Convencido de que assim era o pobre Ministro da Guerra voltou a chatear o Salazar ao que este respondeu:

"Senhor ministro, os calculos estao errados. Diga aos senhores coroneis que revejam as contas, e desde ja' lhe posso afirmar que por este caminho as nao acertarao..."

Perante nova nega os manhosos coroneis disseram ao Ministro da Guerra que ele proprio, em pessoa, podia resolver o assunto por simples despacho ministerial, sem necessidade de qualquer decreto. O ministro fantoche cedeu. Emitiu um despacho e os coroneis la' começaram a receber o seu aumento como pretendiam.

Tres meses depois era o descalabro. Os coroneis, esgotada a verba para pagamento dos vencimentos, atiraram-se como gato a bofe ao dinheiro destinado 'as praças e sargentos. Estes ultimos, coitados, ja' estavam ha' dois meses sem receber...

E' sempre assim. Quando o mar bate na rocha quem se lixa e' o mexilhao. Ou "em cama estreita nos adiante." - como me dizia o Cap. Joao da Costa Andrade, meu ilustre conterraneo.

Quando Salazar soube do ocorrido disse ao general Schiapa:

"Os seus coroneis disseram: "o gajo diz que nao da', mas da'", e eu repito a V. Ex.ª « que nao da'. » Ha' portanto duas saidas: V. Ex.ª manda que os senhores coroneis reponham o aumento ilegal que receberam, ou retiro-me do Governo e que venha substituir-me quem queira dotar esse mau acto de administraçao."

Deixo o resto do relato por conta do tenente Assis Gonçalves que se refere a este interessante acto de rapina no seu livro "Intimidades de Salazar":

"Schiapa de Azevedo, assediado pelos coroneis, que diziam ser uma vergonha para o ministro mandar repor os aumentos, viu-se obrigado a pedir a exoneraçao."

Foi substituido pelo desembaraçado coronel de cavalaria Namorado de Aguiar, que logo mandou repor o dinheirinho todo, como manda a lei.

Moral da historia: Xicos? Quem os nao conhecer que os compre.


26.6.04

Uma vitoria sofrida 

Embora ache o futebol chato como a potassa achei que, para variar, tinha de assistir pelo menos 'a 2ª. parte do jogo Portugal-Inglaterra. Assim aconteceu. Enchi-me de boa vontade e toca de ligar a tv. Portugal estava a perder por uma bola a zero e tal facto buliu comigo. Verifiquei que os nossos jogadores estavam a dar o litro para inverter o resultado e como nao podia deixar de ser solidarizei-me imediatamente com eles. A porra do nacionalismo nao tardou a tomar conta de mim e 'a medida que o tempo se escoava eu praticamente ja' nao via um relvado mas um autentico campo de batalha. Dum lado o lusitano sofrido e humilhado pelo ultimato ingles, do outro o anglo-saxonico soberbo descendente de corsarios, nelsons e wellingtons...

Alem do peso da historia havia ainda a ma' memoria dos football hooligans a contribuir para que eu desejasse ardentemente a nossa vitoria. Era imperioso que desmistificassemos ali no relvado, duma vez por todas, o mito da superioridade anglo-saxonica. O que acabou por suceder graças ao guarda-redes Ricardo que, num impeto de furia , arrumou a questao enquanto o diabo esfrega um olho com o seu golo espectacular.

Foi uma vitoria arrancada a ferros, e' verdade, mas nem por isso deixou de ser bem merecida. Com esta vitoria Portugal nao derrotou apenas uma equipa adversaria, derrotou tambem o orgulho hooliganesco de muitos britanicos que tem a mania de que sao os maiores em tudo.

P.S. Devo dizer que tive pena do treinador ingles. O seu rosto, nos momentos finais, acusava um forte stress. O ideal seria que na vida nao houvesse vencidos nem vencedores, mas apenas gente feliz...


Tres verbos lixados 

Mae, que e' casar?
Filha e' fiar, parir, chorar.


"Salgueiro do Campo", Rafael Agostinho

12.6.04

Hoje... 

Hoje descobri uma coisa espantosa:
que a tropa onde aprendi a ser duro e sarcastico
nao matou de todo a minha humanidade;
Que o verdadeiro amor
vale mais que a Torre de Espada
e todas as demais condecoraçoes;
Que fazer alguem feliz
e´ mais importante que o E = m c^2
ou outra equaçao qualquer;
Que concretizar os sonhos
de quem partilha a nossa vida
e' o nosso maior prodigio.
..........................
Hoje descobri uma coisa maravilhosa:
descobri que amo do fundo do coraçao
uma alma dorida de poeta.
Descobri que amo
a minha mulher.


11.6.04

Complexos... 

Penso que todos conhecem o Psycho de Hitchcock que conta a historia de Norman Bates, um esquizofrenico de dupla personalidade. O comportamento do tipo variava entre o gentleman amistoso e o assassino cruel. Quando estava com a telha era pior que o Deus me livre. Todos sabem o que o doido fez 'a mae e 'a bela jovem que pernoitou no motel, para ja' nao falar no detective, coitado...
A cena da banheira entao e' simplesmente terrivel. Mas, quanto a mim,o momento mais alto do filme e' aquele em que o doido, ja' na prisao, captura uma mosca e a solta com um sorriso, dizendo com a maior candura:

- Eu sou um bom rapaz, nao faço mal a uma mosca...

E' preciso ter muita lata depois de ter feito o que fez.

Freud ficou famoso na historia da Psicologia por ter inventado o complexo de Edipo. Acho que e' chegada a minha vez de inventar tambem um novo complexo: o complexo de Norman Bates - para designar o comportamento duplice de toda essa malta que se julga santinha, apesar das sacanagens que contam no curriculum...

Infelizmente conheço gente assim.

8.6.04

In Patris mei memoriam 

Estavas 'a beira do Zezere
As aguas deslizavam
Em monotono murmurio
Da nevoa do tempo
O chapeu de juncos
Que me fizeste...

Manuel Sousa

22.5.04

A 3.ª obra de misericordia espiritual 

Recordo com um misto de ternura e saudade o tempo em que o meu saudoso Pai, depois da ceia, puxava dum missal e nos ensinava um pouco de doutrina crista. Em tom solene perguntou um dia: " Quantas e quais sao as principais obras de misericordia?" Como nao soubessemos disse: "As principais obras de misericordia sao catorze, sete corporais e sete espirituais. As obras de misericordia corporais sao:

1.ª dar de comer a quem tem fome;
2.ª dar de beber a quem tem sede;
3.ª vestir os nus;
.................

As obras de misericordia espirituais sao:

1.ª dar bom conselho;
2.ª ensinar os ignorantes;
3.ª corrigir os que erram;
.......................

Essa de corrigir os que erram nunca mais a esqueci e como hoje ainda nao pratiquei nenhuma obra de misericordia espiritual digna desse nome aproveito agora o ensejo para praticar a que me e' mais cara: a 3.ª.

Entao, se me permitem, ca' vou eu corrigir os que erram:

1. Sanches Roque in "Alcains e sua historia"

Trata-se de alguem que escreveu uma obra notavel, do melhor que tenho lido no genero, mas onde detectei erros e omissoes de bradar ao ceu, a saber:

1.1 Na pag. 393 e seguintes o autor faz a biografia do 2º visconde de Oleiros mas logo 'a primeira cavadela minhoca. Quero dizer com isto que começa por errar o nome do biografado. Segundo Sanches Roque o nome do 2º visconde de Oleiros seria o Dr. Francisco Albuquerque Pinto Castro e Napoles - o que e' um enorme disparate. Esse nome corresponde ao 1º visconde de Oleiros que foi pai do Dr. Francisco Rebelo de Albuquerque Mesquita e Castro, o qual na qualidade de primogenito do 1º visconde lhe sucedeu no titulo com o nome de 2º visconde de Oleiros.

1.2. Na pag. 395 o mesmo autor escreve "O Sr. Visconde de Oleiros, chamavam-lhe de Oleiros mas ele era antes de Alcains." O incauto que ler isto fica a pensar que o fidalgo em causa teria nascido em Alcains o que e´ falso. No Arquivo Distrital de Castelo Branco tive acesso ao Assento de Obito do 2º visconde de Oleiros e verifiquei com os meus proprios olhos que o mesmo nasceu em Castelo Branco, em 27 de Novembro de 1815.

2. Museu Francisco Tavares Proença Junior

No serviço de recepçao do museu deram-me um folheto alusivo 'a Biblioteca D. Fernando de Almeida (especializada em Arqueologia e Historia de Arte) no qual vem alguns endereços uteis. Acontece porem que o e-mail do Museu nao esta correcto.

Onde esta' escrito:

mftj@ipmuseus.pt

deveria estar:

mftpj@ipmuseus.pt

Hoje fico-me por aqui. Amanha ou depois talvez tenha pachorra para continuar a praticar a terceira obra...


20.5.04

Um problema de comunicaçao 

Num destes dias passei pelo Museu Francisco Tavares Proença Jr, em Castelo Branco, para fotografar um pedra*. Qual nao foi o meu espanto quando uma das funcionarias me disse que nao era permitido tirar fotografias. Como o meu conceito de funcionario publico e' abaixo de cao pedi para falar com a Directora do museu, a fim de eliminar quaisquer duvidas. Em vez dela apareceu-me uma Tecnica Superior Principal 'a qual pedi que me mostrasse a legislaçao em que constasse a referida proibiçao. Ouvindo isto disse que ia busca'-la. Pouco depois estava de volta mas de maos vazias. Da lei nem sinal...
Ja' que nao havia qualquer documento escrito que pusesse termo 'as minhas duvidas ao menos que me dessem uma razao logica que justificasse a proibiçao. Respondeu-me que esta tinha a ver com a segurança e preservaçao das peças expostas.

Neste ponto da conversa perguntei que mal fazia fotografar uma pedra, ainda se fosse uma tela... agora uma pedra nao creio que o flash lhe fizesse grande mossa :-)))

Disse que achava a proibiçao uma estupidez e ate' uma prepotencia, que ja' visitara museus com muito mais categoria...

Ao ouvir a ultima palavra a senhora exaltou-se, os seus olhos salientaram-se nas orbitas, e tendo começado a levantar a voz num tom que achei ofensivo pedi-lhe que baixasse a voz uma oitava, que nao admitia que uma mulher falasse mais alto do que eu.

Respondeu que era uma questao de feitio, que ja' com o marido tambem era assim...

Voltando 'a vaca fria disse-lhe que tinha estado no Louvre e noutros grandes museus da Europa e que sempre fotografara 'a vontade e sem qualquer tipo de impedimentos, que estranhava que no meu proprio pais encontrasse tantos empecilhos para fotografar uma pedra que, por acaso, ate' fora achada na minha terra, o que tornava ainda mais viva a minha indignaçao.

No respeitante ao uso livre da maquina fotografica nos museus estrangeiros pareceu-me por em duvida a veracidade do que estava a dizer e rematou a ofensa afirmando que eu nao estava a ser intelectualmente honesto. Era demais. Fazendo um esforço para nao perder a tramontana respondi-lhe que trazia comigo mais de 125 megabytes de fotos em formato digital e que se quisesse podia provar ali mesmo a veracidade das minhas palavras.

Tendo a senhora declinado a proposta disse-lhe que nao valia a pena continuar com a discussao, que o melhor era passar-me um documento em como eu ali estivera naquele dia e onde constasse as razoes que me impediam de tirar a foto. Assim fez, e la' me vim eu embora de maos a abanar de regresso a casa, depois de ter gasto sete continhos em gasoleo...

Para provar urbi et orbe que nao sou intelectualmente desonesto aqui vai uma das muitas fotos que tirei no Louvre, ha coisa de 4 anos:



Satyrus et nimpha, Museu do Louvre, Paris.

Bonita escultura, hein? Tenho outras igualmente baris como a do belo Centauro Velho para nao falar em telas como "A Jangada de Medusa" de Gericault ou "A Morte de Sardanapalo" de Delacroix. Esta ultima tela e' enorme (cerca de 4 m x 5 m) pelo que fiz questao de me fazer fotografar diante da dita.
Na foto, tendo a tela como pano de fundo, figuram alem de mim duas belas jovens.

Regressado a casa decidi telefonar para a Directora do Museu Francisco Tavares Proença Jr. ja' que a minha discussao com a Tecnica Superior Principal nao tinha sido conclusiva. A conversa decorreu em tom algo exaltado como era de prever e antes que a coisa se exacerbasse mais perguntei qual era a entidade que tutelava o museu, tendo-me respondido que era o IPM (Instituto Portugues de Museus) em cujo site podia consultar a legislaçao aplicavel.

Foi assim que cheguei 'a Divisao de Documentaçao Fotografica onde consta o "Regulamento** para a execuçao e aquisiçao de imagens a peças dos museus do IPM".

Trata-se dum documento cheio de paleio onde se fala da "salvaguarda do patrimonio movel" ... "por forma a evitar a sua sistematica manipulaçao e exposiçao a factores fisicos prejudiciais 'a sua conservaçao".

Ate' aqui tudo bem. Mais adiante diz-se que o IPM e' "titular de todos os direitos de autor e direitos conexos" no que diz respeito 'as fotografias do seu acervo.

De acordo. Que fiquem la' com as suas preciosas fotos e mais os seus direitos todos, incluindo os conexos, obrigado, que eu tenho a minha propria maquina digital que me torna completamente auto-suficiente no que respeita aos meios de aquirir imagens de excelente qualidade.

O pior e' quando chego ao n.º 9 do Cap. I onde vejo escrito:

9. Aos visitantes dos Museus esta' vedada a execuçao de fotografias no seu interior.

Toma la' que te dou eu...

Logo a seguir esbarro com o Cap. II que se refere 'a aquisiçao de imagens fotograficas. No n.º 12 leio que cada foto implica o pagamento duma taxa que abrange os "custos de materiais e trabalho, taxa de publicaçao e custos de envio". No nº. 17 leio que "a perda ou dano das imagens cedidas incorre no pagamento ao IPM de 150 euros por cada imagem. Quer isto dizer que se eu nao devolver a imagem intacta no prazo maximo de 5 meses levo com uma coima de mais de 30 continhos.

No fim vem a tabela de preços referente ao ano de 2001. Atraves dela fico a saber que para ter acesso temporario a uma imagem digitalizada em alta resoluçao tenho que desembolsar quase 20 continhos ...

(Isto partindo da hipotese altamente improvavel que a tabela nao sofreu inflacçao nos ultimos 3 anos).

Um balurdio so' para ter acesso a uma pedra. Mas como a pedra e' para publicar num trabalho sobre a historia da minha terra a despesa nao fica por aqui, naturalmente.

Uma vergonha.

'A guisa de conclusao, devo dizer que a desinteligencia ocorrida no atrio do Museu Francisco Tavares Proença Jr. podia muito bem ter sido evitada "ab initio" se as funcionarias me tivessem mostrado a lei quando a pedi. Por incrivel que pareça nao tinham nada a nao ser patoa'...

Ora eu nao me fio em patoa´. Vivemos num tempo em que para mim so´a "escritura" faz fe'.

Notas

* A pedra que eu desejava fotografar trata-se duma pequena ara votiva dedicada por Montanus aos deuses Arentia e Arentius e descoberta na minha terra em 1906.

** Da leitura do Regulamento do IPM fica a ideia de que mais do que proteger as peças em exposiçao existe a preocupaçao mercantilista de "fazer dinheiro" a todo o custo - o que ate' e' compreensivel atendendo 'as dificuldades de financiamento dos museus em Portugal. A proibiçao de fotografar ou filmar no interior dos museus deve portanto ser entendida nao como uma forma de proteger as peças mas antes como uma forma expedita de obrigar os utentes a alugar as imagens existentes em arquivo. Esta e' que e' a grande verdade.

Para rematar devo dizer que nao vejo mal nenhum nisso, o problema e' que as imagens para publicaçao sao caras como o fogo.

Manuel C. Sousa




30.4.04

In illo tempore... 



Eu e a minha "girlfriend" pintamos este quadro na Nazare' , ja' la' vai uma porrada de anos. Encontra-se na minha biblioteca em lugar de destaque.

16.4.04

O cuco no Iraque 

Estava no Iraque o cuco a cantar
Por tras duma ruina nos fomos escutar:
Cu-cu, cu-cu, cu-cu, cu-cu, cu-cu (bis)

A noite estava escura, e nao tinha luar
Ouvimos la' ao longe o lobo a uivar:
Au', au', au', au', au'! (bis)

Na caserna da GNR cantava-se a cançao do "Raspa daqui p'ra fora".


7.4.04

Conheço... 

uma jovem educadora de infancia pela qual nutro um respeito muito especial. Em primeiro lugar pela sua extrema dedicaçao 'as crianças e, em 2º. lugar, pela competencia profissional por todos reconhecida. Posso afiançar que no mundo do trabalho e' raro ver alguem assim. As crianças adoravam-na e eu admirava sobretudo a santa paciencia com que aturava os putos mais intrataveis. Admirava-me como e' que o seu sistema nervoso aguentava tanta birra e tanta impertinencia sempre de cara alegre.

Mas o destino raramente e' justo. Devido ao stress e ao excesso de trabalho a jovem em causa encontra-se de baixa com um esgotamento e uma depressao em cima do lombo. Quanto a mim os pais dos miudos tem culpas no cartorio. Deixam os filhos fazer tudo e mais alguma coisa la' em casa, nao sabem impor-lhes normas de boa conduta porque nao se pode contrariar o menino nao va' ele apanhar algum trauma e depois e' o que se ve. As educadoras e professoras que aguentem a pastilha. Se o menino leva um estalo aqui d'el rei...

Resultado: temos uma sociedade cada vez mais violenta e insegura com marginais a proliferarem como cogumelos numa floresta. Quanto a mim os problemas comportamentais tem de ser resolvidos a montante e nao a jusante. Se os pais nao assumirem a sua quota de responsabilidade na educaçao dos filhos nao ha' escola ou governo que possa fazer deles bons cidadaos. Ja' dizia o Marcello Caetano: "Com homens maus nao ha' estruturas que valham."

Etimologia [1] 

adolescente - vem de adolescens, participio presente do verbo latino adolescere (crescer). Etimologicamente significa "crescendo", "que cresce".

adulto - deriva de adultus ( ou adultum), participio perfeito do verbo adolescere e significa "crescido", "que cresceu".

Quem diria que adolescente e adulto derivavam do mesmo etimo? A unica diferença e' que a palavra adolescente remete para um processo em evoluçao (crescendo), enquanto que adulto implica que o processo de crescimento terminou (crescido).

Notas eruditas:

adolesco, is, ere, evi, adultum (ad, alo)
A palavra adolescere integra os elementos ad + alere.
ad - prefixo que indica aproximaçao, direcçao para, começo da acçao, adiçao.
alere - 1. nutrir, alimentar, sustentar. 2. fortificar, fazer crescer, desevolver .


Um dia... 

Eva Braun criticou o Fuhrer por andar um bocado encurvado. Ele acusou a estocada e disse, entre outras coisas, que carregava com um saco cheio de problemas. E acrescentou:

- Tu usas saltos altos para ficar mais alta, e eu inclino-me um pouquinho, assim combino melhor contigo.

- Eu nao sou baixa, eu meço 1 metro e 63, como Napoleao! - protestou ela.

Nestes casos um par de sapatos de salto alto pode realçar muito a elegancia duma mulher, mas quando vejo uma mulher de sapatos atamancados... mete-me pena. Fazem-me lembrar os infelizes que utilizam calçado assim porque nasceram com uma perna mais curta que a outra.

5.4.04

Perguntas-me quem sou? 

Perguntas-me quem sou? Sou astro errante
Que um sol dominador a si chamou,
E, cego do seu brilho rutilante,
Se queima nessa luz que o encantou!

Meus passos de inseguro caminhante,
Submissos ao olhar que os escravizou,
Caminham para Ti em cada instante
E tu ainda perguntas quem eu sou!

Eu sou aquilo que de mim fizeste,
Sou as horas sombrias que me deste
A troco da ternura que te dei...

Perguntas-me quem sou? Nome de Cristo,
Eu nada sou, Amor, eu nem existo,
Mas querendo tu, Amor, tudo serei!

Reinaldo Ferreira


Salve! 

Cat - que cometeu a asneira de fazer na "quinta-feira" 40 anos de idade. Nao sei quem e' que me disse que cometeu a mesma tolice... :-) Parabens e os votos de que continues a asneirar por muitos e muitos anos.

Cebolinha - Boa sorte para o teu blog e os votos de que tenhas muitos gargantuas a saborear a Cebolada.

Mar - Good luck para o teu Espelho Magico, filha, e cuidado com o narcisismo...

Sonho estranho [1] 

Esta noite nao sonhei com uma gaja boa como e' meu costume. Sonhei - va'-se la' saber porque - com o Jose' Saramago. O tipo estava numa sala cheia de gente a responder a perguntas sobre a sua obra. Um chico esperto fazia perguntas a que o escritor respondia com uma inteligencia e vivacidade surpreendentes. Eu estava entre o magote e lembro-me de ter um pensamento muito pouco abonatorio 'acerca do caracter do chico que estava botando faladura, cujo perfil eu conhecia.

Hoje, de manha, dizem-me: "Esta' aqui uma carta para ti." Abro o envelope e o que e' que eu vejo? Um convite:

"A Editorial Caminho, a Americana - Papelarias, Livrarias e Equipamentos, S.A. e a ESTG - Escola Superior de Tecnologia e Gestao de Leiria tem o prazer de convidar V. Exa. e familia para a apresentaçao do livro "Ensaio sobre a Lucidez" do Escritor Jose' Saramago que ocorrera' na ESTG - Escola Superior de Tecnologia e Gestao de Leiria - Biblioteca Jose' Saramago no dia 13 de Abril pelas 18h00.

A apresentaçao do livro sera' efectuada pelo Exmo. Sr. Professor Luciano Rodrigues de Almeida - Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politecnicos."

Simples sonho ou precogniçao?


Sonho estranho [2] 

Ha' uma porrada de anos tive um sonho muito desagradavel - tao desagradavel que nunca mais o esqueci. Na minha perturbaçao onirica vi uns testiculos humanos horrorosamente inchados facto que me levou a acordar assarapantado, com o coraçao a bater forte.
De manha uma carta. Vinha do Joao das Minas, um amigo que se encontrava na tropa. Ja' nao me recordo do teor da missiva, so' sei que terminava com uma anedota:

" Numa carruagem de comboio tres senhoras discutiam muito filosoficamente qual a dor mais dificil de gramar pelo ser humano. A 1ª dizia que era a dor de cabeça, a segunda dizia que era a dor de dentes e a 3ª dizia que era a dor de parto. A conversa girava 'a volta deste tema com variaçoes em do' maior e nao havia maneira de chegarem a um consenso. Um soldado, que viajava ao lado e que em vao tentava adormecer, rematou a discussao dizendo em tom irado:

"Para por um ponto final na conversa, ja' alguma das senhoras levou um pontape' nos colhoes?"


1.4.04

Aguarela 

hoje não sei. perco-me nos meus meandros, nas minhas linhas curvas, intersecções agnósticas, sem fim. hoje estou sem fronteiras, sem limites, sem princípios nem fins. estou como estou sempre: sozinha. peguei numa tela, em dois tubos de acrílico, em dois pincéis. subo a rua. à tua procura, no teu castelo. deixo o meu reduto e parto em busca do teu. estou cansada de viver à espera. ajo. deixo-me de inércias e decido assumir um papel activo na minha vida. se é para morrer, que seja em guerra. se é para lutar, que seja com armas sólidas. se é para amar, que seja contigo.

In Outro lado da Lua


God... 

God is crazy
Crazy with love
About us.

priest Gameiro


31.3.04

Outros mundos... 

No mundo da abstracçao pura
Ha' tantas coisas belas para descobrir
E para nos deslumbrar...




So cute! - Hanna said. 



Here is my kitten. Where is it gazing to? A blackbird maybe...

Now I'm going to search a song for it...

In memory of my missing cat


29.3.04

Serro Ventoso 

Depois de ter visitado aldeias perdidas, onde ainda permanecem reminiscencias dum ruralismo antigo, decidi ir ao Serro Ventoso. Paisagem agreste, arvores queimadas, eminencias calcarias, um pequeno vale, um bode com o seu pequeno harem de cabras e mais acima uma povoaçaozita de casas terreas sem vivalma. No ceu azul um milhafre em voo planado, com os olhos tensos de gula, 'a procura de presa.

Estaciono o carro 'a beira da estrada e decido subir ao monte onde se recortam sob o sol poente as silhuetas de tres moinhos de vento com os seus enormes falos enegrecidos, a fazer lembrar canhoes de batalhas perdidas. Subo por uma vereda pedregosa ladeada aqui e ali por uma ou outra flor silvestre. Nao tardo a chegar ao cume. Aproveito para explorar os moinhos um a um ao longo da crista montanhosa. Avisto mos ao abandono, troncos musgosos e carcomidos pelo tempo onde crescem minusculas plantas 'a revelia da civilizaçao e dos olhares indiscretos.

'A volta dum dos engenhos, onde outrora sob o impulso dos ventos velas de linho rasgaram o ceu em poetico rodopio, descubro o que resta da cabana do moleiro. Um tugurio selvagem cosido a uma enorme fraga por cujas fissuras emerge o azinho ou la' o que e' aquilo. No interior, a ceu aberto, vejo a boca dum forno e os vestigios duma lareira. Era ali naquele antro do fim do mundo que o moleiro descansava das fadigas da moiçao.

Sopra uma leve brisa muito agradavel. Espraio o olhar em redor e sinto-me como se estivesse num sumptuoso trono. La do alto avistam-se serros, cumeadas, vales, aldeolas e la' mais ao longe o casario de Porto de Mos com o seu castelo.

O Sol declina sobre a montanha, e' tempo de regressar 'a civilizaçao. Ao contornar o ultimo moinho, num especie de adeus, eis que se me depara uma garrafa de rotulo intacto onde figurava um violino e a palavra "Amadeo". Leio a letra miuda e verifico tratar-se dum vinho italiano de tipo espumoso.

Desço a encosta e pouco depois estava na estrada. Antes de me ir embora ainda aproveito para ir cheirar um poço cujo entrada parecia uma anta. Com o auxilio duma corda retiro das profundezas um balde cheio de agua. Nao que tivesse sede, foi so' por pura diversao. Com a alma mais aquietada o Nimbus McBride avança rumo 'a planicie...

Um postal de Los Alamos 

Para quem nao sabe Los Alamos fica no Novo Mexico, USA. Foi ali que nos anos 40, num laboratorio ultra-secreto, foi construida a 1ª. bomba atomica da historia. E' la' que se encontra o fisico teorico Armando S. Vieira, um jovem cientista com o qual partilhei algumas aventuras fluviais no Zezere, Minho e Cavado. Recebi hoje dele um postal com uma foto de Pueblo Bonito, localizado no Chaco Canyon, New Mexico. Diz o seguinte:

Ola' amigo, escrevo-te de um dos locais mais miticos da historia da Fisica e do sec. XX. Los Alamos, com + de 20 000 cientistas, a maioria Fisicos, e' um dos locais mais excitantes para fazer ciencia. A paisagem e' tb fabulosa. Pena e' que os americanos se tenham revelado tao... frios e arrogantes. Mas e' o preço que ha' a pagar. Abraço. Armando.

No verso do postal, em letra miuda, pode ler-se:

Located in remote Chaco Canyon National Monument, New Mexico, the Pueblo Bonito Ruin dates to the A. D. 900's. Pueblo Bonito was once up to four stories high, contained 800 rooms, 32 kivas (round ceremonial chambers), and was constructed of more a million dressed stones. The monument occupies 34 square miles and contains 13 major Anasazi ruins and hundreds of smaller ones.

26.3.04

Un vol d'oiseau... 

Devo confessar aqui um pecado. Nao tenho por habito andar de blog em blog, feito abelha, para ver o que se escreve neste mundo virtual. Ontem 'a noite, porem, abri uma excepçao e decidi arriscar. Foi deste modo que fui parar ao Outro lado da Lua.
Prosa inteligente a ressumar poesia em cada palavra foi o que se me deparou. Tudo ali e' leve e feminino desde as cores 'as palavras. Pensamentos subtis, aguarelas de sentimento, leveza, desejos velados, diafaneidades, Eros e Psyche...

25.3.04

Pensamentos avulsos... 

Quando olho para uma porta nao a vejo como uma coisa rectangular que abre e fecha e ponto final. Vejo-a mais como um objecto que pode ser utilizado para transmitir conceitos fisico-matematicos da maior importancia, incluindo o conceito de integral de linha.

Dos confins da memoria chega-me a imagem do Colegio de Santo Antonio com o seu espaçoso patio onde decorriam cenas com o seu que de insolito. Recordo o Lino, um cabula de alto coturno, a discutir com outros as respostas dadas no ponto de historia, sempre em grandes ansias para chegar 'a positiva. «Quem foi o rei que assinou a Magna Carta?» Soou uma resposta no ar e logo rebentou acirrada discussao. O Lino, que nao tinha atinado com nenhuma ate' ai, achou que chegara o momento da desforra e, dando um acento tonico 'a sua voz de adolescente espigadote, ei-lo a clamar:

- FOI O JOAO SEM TERRA, FOI O JOAO SEM TERRA!...

Eu que observava a cena sorria complacentemente.

Recordo uma barrela que fizeram ao Jose' Alberto, um caixa de oculos com uma pele tao branca e delicada que parecia uma mulher. Tres mariolas agarraram nele como quem agarra um porco em dia de «mataçao», arrancaram-lhe as calças e a roupa intima e esfregaram-lhe as partes vergonhosas com ervas de propriedades urticantes.

Lembro tambem o Ze' Damas, um estoira vergas de alto gabarito, a envolver-se em acesa discussao com um epileptico, tipo menino da mama. Apos um longo preambulo de insultos mutuos, vejo-os a passarem 'as vias de facto com socos trocados a esmo, ressoando sinistramente no ar. Sao daqueles que nao fazem grande rumor, so' os sente quem os rilha - como diria o Aquilino Ribeiro. A luta continuava indecisa com ambos os contendores ja completamente exaustos ate' que o Ze' Damas, ja' farto de distribuir murros inconsequentes decidiu por termo 'a refrega dando um pontape' nos testiculos do adversario. A cena que se seguiu nao foi la' muito edificante. Apanhado de subito nas partes fracas, o rapaz desatou de rebolar-se-se pelo chao a berrar como um desalmado que ate' metia do'. Deus vos guarde, filhas, de um dia apanhardes um pontape' nos...

24.3.04

'As vezes... 

apetece-me gongorizar a minha escritura com latinismos, trocadilhos, neologismos e uma data de pensamentos subtis. Depois pensando nas filhas, que ja' carregam com o onus do ingles, do italiano, das equaçoes e da falta de acentos, decido tirar dai o sentido. Em atençao a elas, hoje vou aligeirar um pouco a materia.

Ouvi nas noticias que Portugal, a nivel europeu, ocupa o 2º. lugar no que concerne 'a taxa de adolescentes gravidas. Nao bondava ja o nosso record na taxa de acidentes rodoviarios, tinhamos que ter mais este, o' sorte. Acho inutil estar a tentar descobrir causas sociologicas para o fenomeno. Temos o sangue quente e' o que e'.

Assim como assim que o nosso pior mal fosse esse. Com uma populaçao cada vez mais envelhecida talvez seja de aplicar aqui o ditado que diz que ha' males que vem por bem. Pior e' o desemprego a disparar e a pobreza encoberta que anda por ai. Ate' ja' ha' quem fale em fome...

E o nosso governo o que e' que faz? Porque e' que o nosso pais nao arranca da crise? Sera' que a culpa e' dos bois ou do Manel Jeirinhas?

A logica da batata dos alemaes durante a guerra... 

Esta que se segue pesquei-a do "Diario" do conde Ciano, que ando a ler.

12 Gennaio 1942 - Il duce protesta per il contegno dei soldati tedeschi in Italia e, specialmente, per quello dei sottufficiali che sono tracotanti, provocatori e ubriaconi. Ieri sera due di loro, a Foggia, sono entrati di forza in casa di un signore che se ne stava andando a letto ed hanno tenuto con lui questo discorso: "Noi abbiamo occupato la Francia, il Belgio, l'Olanda e la Polonia. Stasera, vogliamo occupare tua moglie". Ai che egli ha riposto: "Voi potete occupare tutto il mondo, ma non occuperete mai mia moglie. Non ce l'ho, perche' sono scapolo".
............

Tomem la' que vos dou eu! Olha se o pobre diabo calha a ser casado...

A logica da batata 

O mundo em que vivemos e' um mundo onde o equilibrio dos ecossistemas se mantem 'a custa do seguinte mandamento: «comei-vos uns aos outros.»

E nos, pobres viventes, assim fazemos: As plantas sao dizimadas pelos herbivoros. Estes, por sua vez, sao chacinados pelos carnivoros. No topo da cadeia alimentar esta' o homem, o mais letal de todos. Todos os dias, nos matadouros de todo mundo, sao chacinados milhoes e milhoes de animais, que nos depois comemos alegremente com gargantuesco apetite.

E o pior de tudo e' que achamos tudo isso normal.

Razao tinha Schoppenhauer quando um dia escreveu: "Se Deus criou o mundo, eu nao gostaria de ser esse Deus."

E' que se Deus criou um mundo, onde os seres vivos para sobreviverem tem que se matar uns aos outros, entao foda-se. Ha algo de errado em tudo isto.

Perante o que acabo de expor nao ha' teologia ou religiao que resista. Tudo nao passa de lixo metafisico - como diria o Fernando Pessoa.

22.3.04

Non ammetto... 

Tenho aqui em cima da secretaria o "Diario" do conde de Ciano, um cartapacio de 747 paginas que comprei na minha ultima viagem 'a Italia. Para quem nao sabe Galeazzo Ciano era genro de Mussolini, por ter sido casado com Edda, a filha mais velha do ditador.

No seu Diario, a paginas 641 e 642, narra o funeral de Bruno Mussolini e conta como o Duce ficou indignado quando, ja' no regresso, os familiares aceitaram dos camponeses um cesto com generos alimenticios.

"Non ammetto di tornare dalla tomba di mio figlio coi polli e le pere."

Aveva ragione.

Em portugues: "Nao admito voltar do tumulo do meu filho com frangos e peras."

Mussolini romantico 

Nao e' segredo para ninguem que o fundador do fascismo era um amante fogoso e duma virilidade pouco comum. Exercia um fascinio sobre as mulheres capaz de envergonhar qualquer D. Juan de bairro.
A par da brutalidade tambem sabia ser terno como o demonstra a seguinte passagem de "Claretta" de Roberto Gervaso:

"A volte si trovavano, invece, all'alba sulla spiaggia, fra le barche dei pescatori. «L'amo. l'amo questa bambina, l'amo, si, non mi vergogno di gridarlo poiche' l'adoro» declamava lui alle onde...

«Ti adoro, piccola Clara, sei la parte piu bella della mia vita, sei la mia anima, la mia primavera, la mia giovinezza, e ho bisogno di te, ho bisogno del tuo amore fresco, buono, tempestoso, assoluto, prepotente, cosi come il mio 'e violento, prepotente, geloso, perche' io sono geloso di te. Te lo dico dinanzi a questo mare che adoro (...) e ricorda sempre queste parole dette alle prime luci dell'alba, nella purezza indimenticabile dell'ora, appena baciata dal sole.

Ricorda Clara quello che ti dice un uomo al tramonto della sua vita, nel declino dell'eta, sono le frasi piu profonde, piu intense, io ti amo, e qualunque cosa accada, io ti amo, ti ho amato e ti amero sempre. Sei l'unica donna che io, nella mia tumultuosa, difficile e tormentata vita, abbia veramente e profondamente amato.»


Ontem... 

meti-me por uma velha estrada romana, feita de calhaus erodidos pelo tempo, e subi 'a montanha. Dum lado e do outro oliveiras raquiticas de troncos musgosos e retorcidos davam um ar da sua graça. Mais para riba denso matagal, bom para couto de raposas, texugos e demais bicharada. De quando em vez uma esguia e fragil planta de flores lindissimas. Lembro-me dos lirios do campo, de Salomao, de S. Mateus. Chego ao topo. Que panorama...


Foi em Pisa...

que achei a mais divertida, e talvez a mais realista definiçao de casamento. Proximo da famosa torre havia uma pequena feira de artesanato. Uma das peças em exposiçao tinha inscrita a seguinte frase:

"Il matrimonio 'e la coesistenza piu o meno pacifica fra due sistemi nervosi."

O que eu me ri, filhas.


21.3.04

Para uma certa raposa... 

Contam que certa raposa,
Andando muito esfaimada,
Viu roxos, maduros cachos
Pendentes de alta latada.

De bom grado os trincaria;
Mas, sem lhes poder chegar,
Disse: - "Estao verdes, nao prestam.
So' os caes os podem tragar".

Eis cai uma parra, quando
Prosseguia o seu caminho;
E, crendo que era algum bago,
Volta depressa o focinho. :-)

Bocage

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to those who have visited my blog. In the last week my Site Meter has registed visitors from some universities, namelly:

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. Singapoure

Special thanks to

- Eng. Armando da Silva Vieira who obtained his Ph. D. from the Coimbra University. It was this my friend who sent to me, by mail, the Miller and the Donkey Problem to be solved.

- Jaime Gaspar, a student of mathematics from the Lisbon University, for his Pascal program.

Manuel Cruz Sousa

15.3.04

The Miller and Donkey Problem - the reason of the discrepancy 

1. Introduction

Before explaining the reason of the existent discrepancy between both the analytical and the computer solutions let me first to develop an alternative and more elementary approach for the problem.

2. An alternative solution

Suppose that the home-mill path is a coordinate line divided in n equal parts or segments, as shown in the Fig. 1.

y(0).......... y(1)..........y(2)...........................................y(k-1)..........y(k)
I---------------I---------------I.................................................I--------------I
0..............1...............2..............................................k-1.............k

Fig. 1

where the terms y(0), y(1), y(2), ......... y(k-1), y(k) are the remaining amounts of wheat at the the endpoints along of the x path, and 0, 1, 2,......., k-1, k are the respective term numbers, being k a nonnegative integer.

Our goal is to maximize the wheat amount to arrive at the mill. For such a purpose it is nedeed to imagine the path divided in n segments and to assume one adequate strategy. According to this the donkey must carry one bag of 100 kg each time, as it is possible, and perform a determinate number of reciprocating motions between the endpoints of the 1st segment until the rest (r) at the origin is zero.*

The method must be repeated for the remaining segments.

It is intuitively clear that the smaller the segments the greater the wheat amount to arrive at the mill and the better the degree of accuracy of the approximation.

If n---> infinity then y(k) tends toward a limit. Such a limit give us the maximum amount of weat and wich can be evaluate by a formula. The next section should be concerned with that.


3. Some terminology

In theory, we can imagine the donkey like a particle that in each infinitesimal segment executes a determined number of goings and comings, similar to the motion of a piston. For our purpose the coming motions do not interest since while they are occurring the donkey eats nothing.

Therefore, in this approach, we shall only consider as trips the forwards motions.

Let

p(k) and p(k+1) = the endpoints of an arbitrary segment;

b = a bag containing 100 kg of wheat;

y(k) = the remaining amount of wheat at p(k);

To move y(k) from p(k) into p(k+1) the donkey has to perform a determined number of trips (goings), subtracting 100 kg at a time, if possible, until the remainder is zero.

So

y(k) = g b

Consequently

(1) g = y(k) / b

where g = number of goings perfomed by the donkey along any arbitrary segment.

The remainder is usually defined by the following equation:

(2) r = y(k) - g b

In general, y(k) and g, both the one and the other rapidly become decimal numbers as according to the divisional process advances even if n is a small number. Consequently in this approach the donkey ends always performing a noninteger number of trips in the great majority of the segments.

For instance, let us consider the path (100 km) divided in 5 equal parts of 20 km. According to the formula y(k) = yo (1 - 1/ n)^k we can elaborate the following table:

Table I

endpoints.............amounts in kg...........trips

p(0)........................10 000...................100
p(1)......................... 8 000...................80
p(2)..........................6 400...................64
p(3)..........................5 120...................51,2
p(4)..........................4 096...................40,96
p(5)..........................3 276,8................32,768

It must be noted that the donkey unloads 80 kg/ trip.

As shown in the table above we can see that there is a segment where the donkey executes 51,2 goings. Decomposing the number we get 51 goings + 0,2 of a going. The fractional part of the number means that the remainder arrives at 0,2x20 km, that is, 4 km beyond the origin of the 4 th segment. In other words: the donkey is at 16 km's distance from the next endpoint where is the mount of the bags. As the animal has already eaten 4 kg it means that the remaining portion became in 16 kg. Taking into consideration that 16 km is a distance to cover it follows that the donkey arrives at the next point with zero kg. So the donkey finishes unloading 51x80 kg at the end of the 4 th segment, that is, 4080 kg and not 4096 kg.

However the formula implies that the remainder portion (16 kg) is added to the mount of bags.

It is easy to see that such a proceeding is mathematically incorrect since to get the next endpoint the donkey has to eat 1 kg/km, that is, 16 kg. This wheat amount must no be added to the bags in no way. Being added it goes to contribute for the increase of the final result. In reality, the amount to be added to the bags should be zero. This fact is happened again throughout other segments and explains the error in the aproximation.

Here it is the reason because both the analytic and algebraic results exceed the correct value in 0,86%.

In the last analysis, the fractionary parts of the quotients are the great responsibles for the inaccuracy of the formula y = yo/e.

4. How do we get Yo/e ?

Let

n = number of parts dividing the path
Yo = initial amount of wheat at the origin
g = number of trips (goings)
b= bag containing 100 kg of wheat
c = rate constant meanig the fractional loss of mass per unit length
p = amount of wheat that the donkey eats in the 1st segment in g trips
y(1) = amount of wheat that the donkey unloads at the end of the 1st segment in g trips
y(2) = amount of wheat that the donkey unloads at the end of the 2nd segment in g trips
y(k) = amount of wheat that the donkey unloads at the end of the kth segment in g trips

In the first segment the donkey will have eaten

p = (c b/n) (Yo/b)

Since c = 1 kg/1 km we have after simplifying:

p = Yo/n

If Yo/n is the amount of wheat that the donkey eats in the 1st segment then the amount unloaded by the animal must be

y(1) = Yo - Yo/n

Factoring we have

y(1) = Yo (1-1/n)

y(1) = Yo(1-1/n)^1

Similarly, for the 2nd segment:

Y(2) = (Yo - Yo/n) - (Yo - Yo/n)/n

Y(2) = Yo(1-1/n) (1-1/n)

Y(2) = Yo(1-1/n)^2

generalizing we get

(4) y(k) = yo (1 - 1/ n)^k

where

k = term number
n = total number of parts dividin the path
Yo = initial amount with x = 0
y(k) = amount of wheat that the donkey unloads at the end of the kth segment in g trips

When the donkey arrives at the mill k = n so that (4) becomes

(5) y(n) = yo (1 - 1/ n)^n

Since lim (1-1/n)^n is pratically equal to

(6) lim (1+1/n)^- n as n ---> infinite

and knowing that (6) is equal to e^-1 we can conclude that

(7) (1 - 1/ n)^n = e^-1

if n ---> infinity

Substituting (1-1/n) by e^-1 into (4) we get

y(n) = Yo e^ - 1

If n---> infinity

or

y(n) = Yo / e

If n ---> infinity

wich is precisely the equation we have obtained in the first approach.

5. In summary

Analytic general solution: y(x) = Yo e^- (x/s)

Analytic particular solution: y(s) = Yo/e

Algebraic general solution: y(k) = yo (1 - 1/ n)^k

Algebraic particular solution: y(n) = Yo/e

Note 1: The algebraic equations imply that k and n ---> infinity.
Note 2: Both the analytic and the algebraic solutions are approximations with an error < 0,86%.

6. Solution of the problem by computational programming

As we could see till now there is no formula to give an exact result for this problem. As far as I know the exact solution can only be obtained by a computer program. I tried some programs and all of them led to the same result.

For example, the table I in section 3 should have the following aspect:

Table II

endpoints.............amounts in kg...........trips

p(0)........................10 000...................100
p(1)......................... 8 000...................80
p(2)..........................6 400...................64
p(3)..........................5 120...................52
p(4)..........................4 080...................41
p(5)..........................3 260..................33

In this case, for n = 5, the donkey arrives at the mill with 3 260 kg, that is, less 16,8 kg than the value obtained in the table I.

If n = 10^10 parts then the round result is equal to 3 647,428 kg.

difference: less 31,366 kg than the analytic result.


7. APPENDIX: Pascal program

7.1 Some values obtained by the program

n parts..................................... Amount of wheat in kg

..10.............................................3 470
..100............................................3 627
..1 000..........................................3 645,6
..10 000.........................................3 647,24
..100 000........................................3 647,409
..1 000 000......................................3 647,425 899 999 997 300
..10 000 000.....................................3 647,427 600 000 004 460
..100 000 000....................................3 647,427 767 999 870 130
..1000 000 000...................................3 647,427 785 408 556 700
..10 000 000 000.................................3 647,427 786 904 417 320

7.2 Conclusion

From 7.1 we can conclude that the correct solution of the problem is 3 647,428 kg

7.3 Pascal program

It follows a Pascal program written by Jaime Gaspar, a student of maths, at Lisbon University:

----- Início do código fonte -----

{$N+}
program Ciclotrao;

uses Crt;

var
m: Extended; { Valor corrente da sucessao }
batidas: Longint absolute 0:$46C; { Numero de batidas do relogio }
batidas_i, { Instante em que se inicia o
calculo }
batidas_f, { Instante em que termina o
calculo }
p: LongInt; { Numero de intervalos }
{============================================================================}
{ Le as opcoes do programa }
procedure Opcoes;
begin
repeat { Repete o input ate' que seja valido }
Write('Introduza o numero de milhares de intervalos: ');

ReadLn(p);
if p < 1 then
begin WriteLn('Tem de escolher um inteiro maior que 0.');
end;
until p >= 1;
end;
{============================================================================}
{ Funcao ceil(x) = menor inteiro maior ou igual a x }
function ceil(x: Extended): LongInt;
begin
if x = Trunc(x) then ceil := Trunc(x)
else ceil := Trunc(x) + 1;
end;
{============================================================================}
{ Calcula o valor de m_p }
procedure Calcular;
var
i : LongInt; { Variavel de controlo de um ciclo }
divisao: Extended; { Variavel auxiliar }
begin
WriteLn('A calcular...');
batidas_i := batidas; { Regista o instante em que se inicia o
calculo }

m := 10000; { Define o valor inicial m_0 }
divisao := 100 / p;

for i := 1 to p do { Calcula m_p por recorrencia }
m := m - divisao * ceil(m / 100);

batidas_f := batidas; { Regista o instante em que termina o calculo
}
end;
{============================================================================}
{ Apresenta o resultado }
Procedure Resultado;
begin
{ Apresenta o resultado do calculo }
WriteLn('Resultado: ', m:18:18);

{ Apresenta o tempo de calculo }
WriteLn('Tempo de calculo: ', Round(0.055 * (batidas_f -
batidas_i)), ' s');

WriteLn('Pressione qualquer tecla para terminar...')
end;
{============================================================================}
{ Apresenta os creditos }
procedure Creditos;
begin
GotoXY(68, 1); Write('Ciclotrao 1.1');
GotoXY(67, 2); Write('(simplificado)');
GotoXY(69, 3); Write('Jaime Gaspar');
GotoXY(62, 4); WriteLn('www.jaimegaspar.com');
end;
{============================================================================}
{ Espera que o utilizador pressione uma tecla para continuar }
procedure Pausa;
begin
repeat until KeyPressed;
ReadKey; { Limpa a tecla da memoria }
if KeyPressed then ReadKey; { Se ainda restar uma tecla, limpa-a }
end;
{============================================================================}
begin;

ClrScr;
Opcoes;
Calcular;
Resultado;
Creditos;
Pausa;

end.

----- Fim do código fonte -----


Email: manuelcruzsousa@sapo.pt

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