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20.1.04

Um conto para as filhas

"Certo preto tinha por costume ir todos os dias molhar o pão na lâmpada de Santo António, e dizia:

Santo Antoninho, estais só?
Deixais-me molhar o pão,
No vosso grijó?

O sacristão da capela ia sempre achar a lâmpada seca, até que se resolveu um dia espreitar quem ia beber o azeite.
O preto voltou e tornou a dizer:

Santo Antoninho, estais só?
Deixais-me molhar o pão,
No vosso grijó?

O sacristão respondeu: "Não".
E o preto parecendo-lhe história, disse:

Santinho di pau a falá?
Hei-de molhá e torná a molhá...

Adolfo Coelho


Entendível?

Pelo Natal uma reportagem de tv mostrou alguns sem abrigo a falar. Um deles tinha um barrete de lã, tipo pescador, e uma farta barba grisalha que lhe dava um aspecto de profeta bíblico.

Interpelado por uma repórter, disse com ares de grande filósofo:

"Eu não sou um marginal; eu sou um marginalizado! Entendível?

A forte entoação que o pobre diabo deu à palavra "entendível" fez-me sorrir. Pressenti que era um modo "sui generis" de chamar parva à jornalista e à sociedade em geral.

Dormia ao relento, à chuva, ao frio, talvez passasse fome, mas isso não abalara os fundamentos da sua dignidade pessoal nem afectara a sua compostura grave e austera.

Pareceu-me ter visto um homem com uma forte convicção da injustiça social. No tocante à teologia cristã estou certo que para ele, como para tantos outros infelizes, tanto se lhes dá que a Santíssima Trindade tenha 3 pessoas como 300...

Como diria o Junqueiro.


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