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18.2.04

Dignidade de virgens ofendidas 

Setembro de 1939, Estação de S. Bento, Porto.

Um grupo de médicos, todos ufanos nos seus uniformes de sous-liutenant comme il faut preparavam-se para entrar para o comboio que devia conduzi-los a Coimbra, a fim de se apresentarem na 1ª. Companhia de Saúde onde deviam receber 30 dias de instrução.

Nisto aparece um soldado quase a deitar os bofes pela boca que lhes pergunta:

- Vomecês são os que vão prá tropa de Coimbra?

- "Semos, semos..." - responde um dos médicos com desdém, como se fosse uma afronta pessoal estar a falar em público com um pobre diabo de tão baixo estatuto.

- Atão vomecês já não bão...

- Quem deu essa ordem?

. Foi o cartel giniral - respondeu prontamente o soldado.

" E foi assim, bobamente e sob a ordem boçal dum simplório galucho, mas naquele momento representativo do exército português, que terminou a convocação feita ... por sua Exª. o senhor Secretário do Ministério da Guerra..." - escreve o Dr. Henrique Almeida, nas suas "Memórias ao léu", um dos uniformizados janotas que não levou a bem que lhe enviassem um básico como mensageiro.

Se calhar queria que lhe enviassem um giniral...

Quem ler o seu livro - admiravelmente bem escrito - ninguém o leva preso. Médico dos proletários, antifascista, etc. e tal, o homem chegou a captar a minha simpatia enquanto lia as suas 490 páginas de memórias. Contudo, ao comentar do modo como comenta o episódio acima, verifiquei que a sua imagem de homem de esquerda e amigo dos pobrezinhos não passava de mera fachada. No fundo da alma era exactamente igual àqueles que politicamente atacava.

Só um homem com o espírito de casta enraizado nas entranhas pode considerar desonroso que um pobre diabo seja seu interlocutor em público. Ele próprio já se esquecera que era flho dum boletineiro que, nas horas vagas, aviava copos de meio quartilho numa taberna.

Também Marcello Caetano se sentiu melindrado por ter um simples sargento a escoltá-lo no avião que o levaria ao Funchal. Mas este, pertencendo ao ancien regime ainda tem desculpa...


Se um dia entrardes na cripta do Panthéon, em Paris, onde se encontram os túmulos dos "philosophes" que inspiraram a Revolução Francesa, não vos esqueceis de lhes fazer uma vénia por mim, filhas. Foram homens como Rousseau, Voltaire, Diderot, Montesquieu, etc. que contribuíram para que hoje vivamos numa sociedade socialmente mais justa, apesar do espírito de casta continuar por aí à solta mesmo em muitos "filhos de taberneiro".

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