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11.2.04

Uma parábola para as filhas 

A multidão aglomerava-se na praia num grande tumulto para ouvir o Mestre. As
filhas, suas discípulas, vendo isso formaram um círculo de segurança à volta
do seu Senhor para evitar que pés sacrílegos O pisassem.

- Senhor- disse Ruth, a moabita, filha de Zaqueu - sobe para a barca não
aconteça seres pisado por algum incircunciso.

Ouvindo as palavras sensatas da sua amada discípula o Mestre caminhou
sobre as águas do mar e subiu para bordo duma barca que baloiçava nas ondas
a sete cajados de distância da praia.

Erguendo a voz o Mestre começou a falar à multidão:

"Havia um reino de pecadores que um dia se rebelou contra o seu Rei. Este
para salvar a vida saíu às ocultas do palácio com os seus fiéis e, montados
em jumentos, dirigiram-se para o deserto que conduzia à montanha da
Salvação. A meio do deserto, porém, tendo faltado o pão alguns começaram a
clamar: "Escapamos aos incircuncisos para agora morrermos de fome. Os
jumentos já os comemos, que haveremos de comer agora? Sem cavalgaduras e sem
pão como poderemos salvar-nos? Mais valia termos sido passados à espada do
que sofrermos os horrores da inanição."

O rei, olhando-os com complacência, retorquiu-lhes: "Fazei como João, o
Baptista". Ao ouvirem isto logo se puseram à caça de gafanhotos tendo sido
farta a colheita. Assim , a breve trecho, todos puderam saciar-se à
vontade, tendo até sobrado mais de setenta vezes sete dos ditos insectos.
Mais adiante começou a faltar a água e novamente começaram os clamores: " De
que nos valeu escaparmos aos incircuncisos se agora vamos morrer à sede?
Mais valia termos sido passados à espada do que acabarmos mais secos do que
o pó do deserto"

De novo o Rei olhou os murmuradores com complacência e disse: " Homens de
pouca fé! Acaso cuidais que eu vos traria para o deserto se não tivesse os
meios de vos conduzir à montanha, onde jorra o mel, o leite, a água
cristalina e onde à noite as estrelas cintilam para todos homens de coração
puro?"

E dizendo isto tirou do seu bornal um odre cheio de água choca cuja
existência todos ignoravam. Todos beberam uma pequena porção, a necessária
para continuarem vivos sob o sol tórrido Não tinham andado mais de mil
estádios quando os clamores se fizeram ouvir de novo. Desta vez o rei não
foi complacente Lançando um olhar tigrino sobre os seus súditos disse: "A
água que resta neste bornal é o garante da nossa sobrevivência colectiva.
Por isso desde já declaro que incorre em pena capital todo aquele que beber
um trago dela sem minha expressa autorização."

Apesar da advertência do rei vários foram os sedentos desesperados que
tentaram apossar-se do odre com o precioso líquido, mas debalde. O rei,
sempre vigíl, a todos azorragava com o vergalho de que andava sempre
acompanhado e com o qual castigava todas as tentativas de delito.

Havia 28 luas que caminhavam no deserto quando Zaqueu, filho de Zebedeu,
gritou: "Vamos à montanha!"

E logo um coro de vozes gregorianas repetiu em uníssono: "Vamos à
montanha!" "Vamos à montanha!" E todos desataram a correr os últimos
estádios que os separavam da redenção. Quando chegaram ao sopé o rei
pousou o odre no chão e afastou-se discretamente. Mal este voltou costas
logo um bando de sedentos se atirou ao odre para saciar a sede. E qual não
foi o espanto de todos quando verificaram que o odre estava completamente
vazio!...

- Senhor - disse Zaqueu, filho de Zebedeu - tu sabias há muito tempo que
o odre não tinha uma gota de água. Porque nos iludiste com uma falsa
esperança?
- Porque sem essa ilusão, meu filho, muitos seriam os que teriam cedido
ao desânimo e acabariam por morrer. Assim pudemos salvar-nos a todos.


Enquanto a barca baloiçava nas ondas alterosas o Mestre levantou a voz e
gritou à multidão atónita:

"Em verdade, em verdade vos digo, que a minha Palavra é o odre que vos
conduzirá à Salvação."

Agnus Dei


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