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20.5.04

Um problema de comunicaçao 

Num destes dias passei pelo Museu Francisco Tavares Proença Jr, em Castelo Branco, para fotografar um pedra*. Qual nao foi o meu espanto quando uma das funcionarias me disse que nao era permitido tirar fotografias. Como o meu conceito de funcionario publico e' abaixo de cao pedi para falar com a Directora do museu, a fim de eliminar quaisquer duvidas. Em vez dela apareceu-me uma Tecnica Superior Principal 'a qual pedi que me mostrasse a legislaçao em que constasse a referida proibiçao. Ouvindo isto disse que ia busca'-la. Pouco depois estava de volta mas de maos vazias. Da lei nem sinal...
Ja' que nao havia qualquer documento escrito que pusesse termo 'as minhas duvidas ao menos que me dessem uma razao logica que justificasse a proibiçao. Respondeu-me que esta tinha a ver com a segurança e preservaçao das peças expostas.

Neste ponto da conversa perguntei que mal fazia fotografar uma pedra, ainda se fosse uma tela... agora uma pedra nao creio que o flash lhe fizesse grande mossa :-)))

Disse que achava a proibiçao uma estupidez e ate' uma prepotencia, que ja' visitara museus com muito mais categoria...

Ao ouvir a ultima palavra a senhora exaltou-se, os seus olhos salientaram-se nas orbitas, e tendo começado a levantar a voz num tom que achei ofensivo pedi-lhe que baixasse a voz uma oitava, que nao admitia que uma mulher falasse mais alto do que eu.

Respondeu que era uma questao de feitio, que ja' com o marido tambem era assim...

Voltando 'a vaca fria disse-lhe que tinha estado no Louvre e noutros grandes museus da Europa e que sempre fotografara 'a vontade e sem qualquer tipo de impedimentos, que estranhava que no meu proprio pais encontrasse tantos empecilhos para fotografar uma pedra que, por acaso, ate' fora achada na minha terra, o que tornava ainda mais viva a minha indignaçao.

No respeitante ao uso livre da maquina fotografica nos museus estrangeiros pareceu-me por em duvida a veracidade do que estava a dizer e rematou a ofensa afirmando que eu nao estava a ser intelectualmente honesto. Era demais. Fazendo um esforço para nao perder a tramontana respondi-lhe que trazia comigo mais de 125 megabytes de fotos em formato digital e que se quisesse podia provar ali mesmo a veracidade das minhas palavras.

Tendo a senhora declinado a proposta disse-lhe que nao valia a pena continuar com a discussao, que o melhor era passar-me um documento em como eu ali estivera naquele dia e onde constasse as razoes que me impediam de tirar a foto. Assim fez, e la' me vim eu embora de maos a abanar de regresso a casa, depois de ter gasto sete continhos em gasoleo...

Para provar urbi et orbe que nao sou intelectualmente desonesto aqui vai uma das muitas fotos que tirei no Louvre, ha coisa de 4 anos:



Satyrus et nimpha, Museu do Louvre, Paris.

Bonita escultura, hein? Tenho outras igualmente baris como a do belo Centauro Velho para nao falar em telas como "A Jangada de Medusa" de Gericault ou "A Morte de Sardanapalo" de Delacroix. Esta ultima tela e' enorme (cerca de 4 m x 5 m) pelo que fiz questao de me fazer fotografar diante da dita.
Na foto, tendo a tela como pano de fundo, figuram alem de mim duas belas jovens.

Regressado a casa decidi telefonar para a Directora do Museu Francisco Tavares Proença Jr. ja' que a minha discussao com a Tecnica Superior Principal nao tinha sido conclusiva. A conversa decorreu em tom algo exaltado como era de prever e antes que a coisa se exacerbasse mais perguntei qual era a entidade que tutelava o museu, tendo-me respondido que era o IPM (Instituto Portugues de Museus) em cujo site podia consultar a legislaçao aplicavel.

Foi assim que cheguei 'a Divisao de Documentaçao Fotografica onde consta o "Regulamento** para a execuçao e aquisiçao de imagens a peças dos museus do IPM".

Trata-se dum documento cheio de paleio onde se fala da "salvaguarda do patrimonio movel" ... "por forma a evitar a sua sistematica manipulaçao e exposiçao a factores fisicos prejudiciais 'a sua conservaçao".

Ate' aqui tudo bem. Mais adiante diz-se que o IPM e' "titular de todos os direitos de autor e direitos conexos" no que diz respeito 'as fotografias do seu acervo.

De acordo. Que fiquem la' com as suas preciosas fotos e mais os seus direitos todos, incluindo os conexos, obrigado, que eu tenho a minha propria maquina digital que me torna completamente auto-suficiente no que respeita aos meios de aquirir imagens de excelente qualidade.

O pior e' quando chego ao n.º 9 do Cap. I onde vejo escrito:

9. Aos visitantes dos Museus esta' vedada a execuçao de fotografias no seu interior.

Toma la' que te dou eu...

Logo a seguir esbarro com o Cap. II que se refere 'a aquisiçao de imagens fotograficas. No n.º 12 leio que cada foto implica o pagamento duma taxa que abrange os "custos de materiais e trabalho, taxa de publicaçao e custos de envio". No nº. 17 leio que "a perda ou dano das imagens cedidas incorre no pagamento ao IPM de 150 euros por cada imagem. Quer isto dizer que se eu nao devolver a imagem intacta no prazo maximo de 5 meses levo com uma coima de mais de 30 continhos.

No fim vem a tabela de preços referente ao ano de 2001. Atraves dela fico a saber que para ter acesso temporario a uma imagem digitalizada em alta resoluçao tenho que desembolsar quase 20 continhos ...

(Isto partindo da hipotese altamente improvavel que a tabela nao sofreu inflacçao nos ultimos 3 anos).

Um balurdio so' para ter acesso a uma pedra. Mas como a pedra e' para publicar num trabalho sobre a historia da minha terra a despesa nao fica por aqui, naturalmente.

Uma vergonha.

'A guisa de conclusao, devo dizer que a desinteligencia ocorrida no atrio do Museu Francisco Tavares Proença Jr. podia muito bem ter sido evitada "ab initio" se as funcionarias me tivessem mostrado a lei quando a pedi. Por incrivel que pareça nao tinham nada a nao ser patoa'...

Ora eu nao me fio em patoa´. Vivemos num tempo em que para mim so´a "escritura" faz fe'.

Notas

* A pedra que eu desejava fotografar trata-se duma pequena ara votiva dedicada por Montanus aos deuses Arentia e Arentius e descoberta na minha terra em 1906.

** Da leitura do Regulamento do IPM fica a ideia de que mais do que proteger as peças em exposiçao existe a preocupaçao mercantilista de "fazer dinheiro" a todo o custo - o que ate' e' compreensivel atendendo 'as dificuldades de financiamento dos museus em Portugal. A proibiçao de fotografar ou filmar no interior dos museus deve portanto ser entendida nao como uma forma de proteger as peças mas antes como uma forma expedita de obrigar os utentes a alugar as imagens existentes em arquivo. Esta e' que e' a grande verdade.

Para rematar devo dizer que nao vejo mal nenhum nisso, o problema e' que as imagens para publicaçao sao caras como o fogo.

Manuel C. Sousa




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