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21.9.04

Descafeinado metafisico 

Hoje estou num daqueles dias de neura em que so' me apetece escrever disparates, em que me seduz a ideia de dizer algo de estupidamente hermetico, coisas do tipo: Pauis de roçarem ansias pela minh'alma em ouro... dobre longinquo de Outros sinos... empalidece o louro...

Se fosse eu a escrever isto punham-me um colete de forças e despachavam-me imediatamente para Rilhafoles, mas como foi o Fernando Pessoa, esta' bem, sao excentricidades de genio...

Hoje apetecia-me ser genial, ter uma plateia de doidos a baterem-me palmas por um quarteirao de palavras esquizofrenicamente alinhavadas , mas como ainda nao estou suficientemente tonto para isso... sai um descafeinado metafisico para as filhas.

Dogmas, aras, holocaustos, sangue, fogo, virgens prenhes,
santissimas trindades, imaculadas conceiçoes
salmos, sacrossantas leis, sacrificios, mortes, ressurreiçoes
tudo isto em transe alucinogeneo vi desfilar
na avenida psicadelica da minha mente
em procissao infernal com Belzebu 'a frente.

Transgrediste o Sabbat, transgrediste a Lei,
Vociferou um velho de barbas brancas, de sandalias nos pes.
Quem es tu? Por certo nao seras uma fada...
talvez o Padre Eterno, Moises ou Torquemada.

Quem quer que tu sejas, Deus ou Satanas,
miserere mei...miserere mei...
Sou um incircunciso, um pobre de Cristo
que de religiao nada sei.

Fui hereje em Veneza,
excomungado em Amsterdao
fui saduceu, epicureo,
iniquo e sem perdao.
Fui despido e a uma coluna atado
e pelo hazan açoitado
enquanto cantavam um salmo
Miserere mei! Miserere mei!

Fui espezinhado, fui escarnecido,
ate' perder a razao.
Misericordia implorei,
os olhos para o ceu virei
Miserere mei! Miserere mei!

Risos, gargalhadas crueis,
ate' que nao podendo mais
me suicidei...
Miserere mei! Miserere mei!

Manuel Sousa

Em memoria de Uriel da Costa, livre-pensador judaico-portugues, vitima do fanatismo e da intolerancia religiosa.

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