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7.12.05

Matéria reimosa 

Num dos textos dum dos nossos sapientes professores doutores encontrei esta pérola de erudição:

A Segunda lei da termodinâmica revela a imagem de um universo em expansão, ameaçado pela crescente entropia, ao mesmo tempo que, por reacção neguentrópica, se reforça a “pirâmide da complexidade” que leva das partículas elementares aos organismos vivos...

Um texto destes [se estivesse cientificamente correcto, que não está] talvez não ficasse mal num curso de física ou de filosofia, mas que hei-de eu dizer quando o curso em causa é o de educadora de infância? Levanta-se aqui um problema. Que validade tem este tipo de conhecimento “científico” para uma moça cuja missão será educar crianças que ainda cheiram a cueiros? Que importa a uma futura educadora infantil a 2ª. Lei da termodinâmica e as reacções neguentrópicas? Porventura não seria mais proveitoso ensinar-lhe a cantar “o patinho nada dentro do laguinho” e outras canções do género?

Este género de linguagem opaca e pretensiosa faz-me lembrar uma personagem de Júlio Dinis. Nas “Pupilas” o escritor põe um barbeiro a discorrer sobre medicina com o João Semana, o velho cirurgião da aldeia. Quando em determinada altura o médico interroga o barbeiro acerca duma doente, que tratavam a meias, eis o modo como lhe responde o charlatão:

Enquanto a mim, e até onde chegam as minhas fracas luzes, aquilo é o flato que lhe subiu ao coração. Por isso a doentinha tem aqueles pasmos, que se vêem. Ora os sinapismos, puxando-lhe os humores para os pés, algum bem lhe podem fazer. Mas eu por mim, Sr. João Semana, penso que nestas doenças de retrocesso, a matéria reimosa não sai sem sedenho. E que ali há matéria reimosa – e fel, que é ainda pior – isso é que há…

Brilhante e cáustico este Júlio Dinis.

Se atentarmos nos dois discursos, o do Sr. Professor catedrático e o do curandeiro charlatão, verificamos que ambos têm um registo muito semelhante. Em primeiro lugar chama a atenção o léxico vistoso e espampanante de ambos com um certo sabor criptográfico. É notório que o objectivo não é informar, mas antes atrapalhar. Enfim, nada que não possa resolver-se com um bom dicionário à mão. O pior é o conteúdo. Em ambos os casos os textos não têm ponta por onde se lhe pegue, pelo que ambos ficariam bem na boca de um Calinas.

E para que não restem dúvidas sobre o fundamento das minhas críticas afirmo solenemente que a segunda lei da termodinâmica não revela de modo nenhum a imagem dum universo em expansão. Se o revelasse os cientistas não teriam perfilhado durante tantos anos o modelo de um universo estático, Einstein não teria adicionado à sua equação do campo gravítico o termo cosmológico, nem teríamos de esperar pelas observações astronómicas de Edwin Hubble que, no ano de 1929, confirmou que o universo estava realmente em expansão.

Ainda não há muito tempo o Dr. Jorge Sampaio disse não compreender porque havia tanto insucesso escolar no ensino superior. Para mim a explicação é clara como a água. Os programas são, dum modo geral, excessivamente teóricos e desligados da realidade. Em suma, contêm muita "matéria reimosa" - para utilizar aqui a terminologia charlatanesca do barbeiro de Júlio Dinis.

Se quisermos melhorar as estatísticas da Educação temos que reformar os programas escolares de molde a expurgá-los de todo o "enchumaço" teórico inútil e dotar as escolas de professores motivados e competentes. Por outras palavras, não percamos tempo com "manobras de diversão" mas tentemos antes confluir directamente para o objectivo fornecendo aos estudantes uma bagagem sólida de competências técnicas que lhes permita vencer os desafios profissionais do futuro sem grandes sobressaltos.

Não é com epistemologias e outras tretas que chegamos lá...

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