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22.12.05

Pausas forçadas 

Há uns anos o ministro da Educação do governo de António Guterres anunciou que iria abolir a filosofia do secundário, mantendo-a apenas nos cursos em que figurasse como disciplina específica. Exultei de alegria com o anúncio porque eu próprio há muito vinha advogando a necessidade de tal medida e por entender que a filosofia era um peso morto para a maioria dos estudantes.

Quando tudo parecia correr sobre rodas aconteceu algo de imprevisto. Marcelo Rebelo de Sousa, verdadeira figura rasputiniana do regime, aparece no ecrã da tvi a malhar no ministro dizendo que não senhor, que a filosofia era muito importante, que ensinava as pessoas a pensar, blá, blá, blá… Para meu grande espanto vi o governo fazer marcha atrás, matando assim à nascença um projecto que se augurava tão auspicioso para a Educação em Portugal.

Recentemente um ministro do Governo de Sócrates fez um anúncio idêntico, dizendo que a filosofia e o português iriam ser varridos das globais do 12.º ano, nos cursos em que não figurassem como disciplinas específicas. De novo me enchi de júbilo.

“Desta vez é que é!” - pensei. Eis senão quando vejo na tv um tipo chamado Marques Mendes, presidente do PSD, a dizer que a medida do Sr. Ministro era uma estupidez, que não podia pactuar com o facilitismo, blá, blá, blá…

Perante esta nova nuvem só espero que o governo não ceda outra vez. É mais que tempo de aliviar os estudantes de todas as matérias supérfluas que os fazem patinar, mas que em nada contribuem, em termos de eficiência, para o seu futuro desempenho profissional.

Quando falo em matérias supérfluas não quero dizer que o Português esteja automaticamente abrangido. O que eu quero dizer é que, para certos cursos de indole técnica, o Português não pode constituir factor impeditivo de progressão nos estudos.


Nota de rodapé

Tanto Marcelo Rebelo de Sousa como Marques Mendes fazem-me lembrar um instrutor manhoso que conheci na tropa. Nos testes físicos de fim de curso havia uma prova chamada elevações. O recruta, suspenso pelas mãos duma tubo, tinha que elevar e baixar o corpo de modo a roçar com o queixo no tubo sempre que ia acima e a esticar completamente os braços de cada vez que vinha abaixo. Era uma prova difícil que fazia baixar as médias aos mancebos mesmo aos mais ginasticados.

Acontece que nesta modalidade de prova eu batia todos os recordes. E o instrutor, que era um bocado pulha, sabia-o melhor que ninguém. A minha técnica era igual a de todos os demais. Consistia em fazer o vaivém o mais rapidamente possível de modo a evitar as pausas no fim de cada ciclo pois era sabido que as ditas pausas consumiam energia a uma taxa muito alta fazendo descer a pontuação de forma drástica.

Pois bem, ia eu na terceira ou quarta elevação quando o gajo me ordenou que parasse. E ali fiquei eu suspenso como um gato dum algeroz a ouvir o sacana a dizer-me para que subisse e descesse ao ritmo marcado por ele. Depois de ouvir o seu "discurso" lá retomei o exercício ao ritmo da sua "batuta" com pausas propositadamente longas a fim de me fazer perder forças. Moral da história: em vez das 20 elevações que costumava fazer acabei por fazer apenas 13 ou 14, já não me lembro bem.

Nesta parábola as pausas forçadas são a filosofia e o português. O instrutor manhoso é representado pelos dois políticos mencionados. Quem tiver ouvidos para ouvir que oiça.

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