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8.12.05

O terceiro calhau... 


A Terra vista da Lua


O nosso mundo visto da Lua tem um aspecto muito belo. Qualquer extraterrestre que se deparasse com tal visão não deixaria de se sentir deslumbrado. Mas este mundo que aos sentidos se oferece tão aprazível e encantador foi o mesmo que matou Jesus Cristo, Mahatma Gandi e Luther King. Todos eles se bateram pela justiça e pela paz, todos eles “combateram o bom combate”, todos eles lutaram por um mundo melhor e todos, sem excepção, acabaram de forma trágica.

Também John Lennon, levado por um certo espírito messiânico, tentou apelar à paz mundial com a sua canção “Give a peace a chance”. Acabou por morrer às mãos dum desequilibrado ávido de celebridade.

Apesar do esforço de todos estes "gurus" o mundo pouco ou nada melhorou em termos ético-morais. Passaram mais de 2000 anos sobre a morte ignominiosa de Cristo na cruz e fico com a sensação de que tudo continua como dantes com o quartel-general em Abrantes. A humanidade continua transviada, cada vez com mais criminosos, cada vez com mais pulhas.

Como dar a volta a isto? Como motivar os pulhas a serem mais honestos nas suas relações interpessoais? Em "O Universo de Carl Sagan" há uma passagem alusiva à guerra do Vietname que talvez contenha uma resposta possível, embora de exequibilidade duvidosa. Quando o sargento Andy, um tipo recém chegado ao teatro da guerra, pergunta a um veterano como poderia motivar as tropas, eis que lhe responde:

Andy, se os agarrares com força pelas partes baixas, os corações e as cabeças virão a seguir.

Palavra de sargento de artilharia.

7.12.05

Matéria reimosa 

Num dos textos dum dos nossos sapientes professores doutores encontrei esta pérola de erudição:

A Segunda lei da termodinâmica revela a imagem de um universo em expansão, ameaçado pela crescente entropia, ao mesmo tempo que, por reacção neguentrópica, se reforça a “pirâmide da complexidade” que leva das partículas elementares aos organismos vivos...

Um texto destes [se estivesse cientificamente correcto, que não está] talvez não ficasse mal num curso de física ou de filosofia, mas que hei-de eu dizer quando o curso em causa é o de educadora de infância? Levanta-se aqui um problema. Que validade tem este tipo de conhecimento “científico” para uma moça cuja missão será educar crianças que ainda cheiram a cueiros? Que importa a uma futura educadora infantil a 2ª. Lei da termodinâmica e as reacções neguentrópicas? Porventura não seria mais proveitoso ensinar-lhe a cantar “o patinho nada dentro do laguinho” e outras canções do género?

Este género de linguagem opaca e pretensiosa faz-me lembrar uma personagem de Júlio Dinis. Nas “Pupilas” o escritor põe um barbeiro a discorrer sobre medicina com o João Semana, o velho cirurgião da aldeia. Quando em determinada altura o médico interroga o barbeiro acerca duma doente, que tratavam a meias, eis o modo como lhe responde o charlatão:

Enquanto a mim, e até onde chegam as minhas fracas luzes, aquilo é o flato que lhe subiu ao coração. Por isso a doentinha tem aqueles pasmos, que se vêem. Ora os sinapismos, puxando-lhe os humores para os pés, algum bem lhe podem fazer. Mas eu por mim, Sr. João Semana, penso que nestas doenças de retrocesso, a matéria reimosa não sai sem sedenho. E que ali há matéria reimosa – e fel, que é ainda pior – isso é que há…

Brilhante e cáustico este Júlio Dinis.

Se atentarmos nos dois discursos, o do Sr. Professor catedrático e o do curandeiro charlatão, verificamos que ambos têm um registo muito semelhante. Em primeiro lugar chama a atenção o léxico vistoso e espampanante de ambos com um certo sabor criptográfico. É notório que o objectivo não é informar, mas antes atrapalhar. Enfim, nada que não possa resolver-se com um bom dicionário à mão. O pior é o conteúdo. Em ambos os casos os textos não têm ponta por onde se lhe pegue, pelo que ambos ficariam bem na boca de um Calinas.

E para que não restem dúvidas sobre o fundamento das minhas críticas afirmo solenemente que a segunda lei da termodinâmica não revela de modo nenhum a imagem dum universo em expansão. Se o revelasse os cientistas não teriam perfilhado durante tantos anos o modelo de um universo estático, Einstein não teria adicionado à sua equação do campo gravítico o termo cosmológico, nem teríamos de esperar pelas observações astronómicas de Edwin Hubble que, no ano de 1929, confirmou que o universo estava realmente em expansão.

Ainda não há muito tempo o Dr. Jorge Sampaio disse não compreender porque havia tanto insucesso escolar no ensino superior. Para mim a explicação é clara como a água. Os programas são, dum modo geral, excessivamente teóricos e desligados da realidade. Em suma, contêm muita "matéria reimosa" - para utilizar aqui a terminologia charlatanesca do barbeiro de Júlio Dinis.

Se quisermos melhorar as estatísticas da Educação temos que reformar os programas escolares de molde a expurgá-los de todo o "enchumaço" teórico inútil e dotar as escolas de professores motivados e competentes. Por outras palavras, não percamos tempo com "manobras de diversão" mas tentemos antes confluir directamente para o objectivo fornecendo aos estudantes uma bagagem sólida de competências técnicas que lhes permita vencer os desafios profissionais do futuro sem grandes sobressaltos.

Não é com epistemologias e outras tretas que chegamos lá...

O homem que revelou a expansão do universo 

Em 1915 Einstein chegou a uma equação estranha e no mínimo surpreendente. A dita equação implicava um universo dinâmico, isto é, um universo em expansão.

Como tal resultado colidia com o modelo de universo estático, então dominante na comunidade cientifica, Einstein achou que tinha de fazer qualquer coisa para ajustar a equação ao dito modelo que pensava retratar a realidade física. E vai daí adicionou à equação um novo termo contendo uma constante em ordem a obter um universo estático. À dita constante foi dado o nome de "constante cosmológica".

Porém,em 1929, no observatório de Monte Wilson ocorre uma descoberta espantosa. Edwin Hubble, aos comandos do telescópio de 100 polegadas, descobre que o universo se encontrava de facto em expansão, com as galáxias a afastarem-se umas das outras a uma velocidade estonteante.

Tal descoberta abalou o mundo inteiro e principalmente Einstein que se apressou a retirar da equação o termo cosmológico que ele apelidou de "maior disparate da sua vida".


O telescópio de 100 polegadas de Mount Wilson, com o qual Hubble fez a sua grande descoberta.

Toda esta conversa para quê? Simplesmente para salientar que se deve ter muito cuidado com o que se escreve. Afirmar que a segunda lei da termodinâmica revela a imagem de um universo em expansão parece-me um rotundo disparate. Se de facto revelasse um universo em expansão, Einstein, arguto como era, ter-se-ia apercebido disso imediatamente e nunca teria adicionado às suas equações do campo gravítacional o termo cosmológico, pois ele, como físico, conhecia muito bem a 2.ª lei da termodinâmica, a qual, aliás, já tinha sido enunciada empiricamente no séc. XIX, portanto, muito tempo antes.

4.12.05

Uma frase enigmática 

Há uns anitos quando descia o Douro num barco semi-rígido encontrei na barragem da Valeira algumas inscrições muito curiosas. Estas assinalam o fatídico local onde outrora se erguia o cachão da Valeira, originado por um bruto rochedo no meio do rio que obstaculizava a navegação desde tempos imemoriais. Foi ali que um dia o barco rabelo do barão de Forrester foi colhido por um redemoinho e se voltou com 16 pessoas a bordo. Todos se salvaram menos o barão, uma criada e um criado. Camilo Castelo Branco, em "A Queda de um Anjo", faz alusão ao desastre que tanto impressionou a sociedade da época.



Na foto vêem-se duas inscrições praticamente iguais. A primeira (e mais antiga) está parcialmente submersa e remonta ao reinado de D. Maria I; a segunda, um pouco mais acima, não passa duma cópia da original, tendo sido gravada posteriormente por razões que facilmente se intuem.

Dizem o seguinte as inscrições:

Imperando D. Maria primeira (...)
se demoliu o famozo rochedo
que fazendo aqui
hum cacham inaccessível
impossibilitava a navegação
desde o principio dos séculos.
Durou a obra
desde 1780 até 1791.

Ambas as inscrições terminam com uma frase em latim onde se pode ler:

PATRIAM AM AVIFILIOSQUE DILEXI.

O que quererá dizer esta frase enigmática? Em parte alguma achei quem se dignasse esclarecer este mistério. Um belo dia, porém, decidi meter mãos à obra. Agrupei as palavras "comme il faut" tendo chegado ao seguinte arranjo:

PATRIAM AMAVI FILIOSQUE DILEXI.

[Amei a Pátria e os filhos honrei.]


P.S. Ainda dizem que o latim é uma língua morta que não serve para nada, ai não que não serve...

In memoriam... 

Estava refastelado num sofá a ver o telejornal da noite. De súbito vejo desfilar na pantalha do televisor imagens alusivas ao Afeganistão e ao pobre sargento que lá se finou do modo que a gente sabe. Seguem-se cenas fugazes do aeroporto de Cabul, soldados em confraternização, casas destruídas... até que a câmara se centra numa pequena lápide de mármore “IN MEMORIUM” do pobre coitado.
Ao contemplar tão grosseiro dislate senti uma espécie de reacção disfórica por os nossos militares tratarem tão mal o latinório. Se Cícero fosse vivo dava-lhe um baque! Então isso é coisa que se faça? Como castigo, senhores militares, todos já para a parada em passo de corrida e façam favor de preparar os bracinhos para 50 flexões.

- Um, dois,
- TRÊS, QUATRO…
- Abaixo, acima!
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